"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos." (Marguerite Yourcenar)

«Adevăratul loc de naştere este acela unde pentru prima dată ai aruncat asupra ta însuţi o privire pătrunzătoare» (Marguerite Yourcenar)

www.raulpassos.mus.br

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14 de out de 2014

MÚSICA & MISTICISMO no programa "Presença e Harmonia"

Uma conversa desconstraída e espiritualizada sobre as ligações entre música e misticismo.

http://www.youtube.com/watch?v=fQM4cesCSas&list=PLDDF6A1B2810FD882

ROMÊNIA JULGA CRIMES DO PASSADO COMUNISTA

http://www.dailymotion.com/video/x26jf0l_romenia-julga-crimes-do-passado-comunista_news

Roménia está a viver um momento histórico, com o julgamento dos crimes do regime comunista.
Alexandru Vișinescu, antigo comandante de um campo de trabalhos forçados, começou a ser julgado em Bucareste.
Nicoleta Eremia é viúva de um antigo general romeno que esteve preso no campo dirigido por Vișinescu: “Mandei para o tribunal os relatórios que ele assinou, em que manda o meu marido para a solitária, em condições muito difíceis. Houve dias sem conta em que nem sequer lhe deram de comer”.
Há quem chame já a este julgamento uma versão romena dos julgamentos de Nuremberga.
“Um crime é sempre um crime, independentemente de quando foi cometido. Este julgamento é importante para a sociedade romena, porque mostra a dimensão dos crimes cometidos pelo regime comunista nos anos 50 e 60”, diz Andrei Murar, responsável pela investigação de crimes do antigo regime.
Estima-se que mais de 600.000 pessoas tenham sido presas nos campos de trabalhos forçados enquanto durou o regime autoritário, de 1947 a 89.

24 de fev de 2014

WILD CARPATHIA - interessantíssimo filme sobre a Romênia

Abaixo um link para o vídeo "WILD CARPATHIA", um interessantíssimo documentário sobre a Romênia, em especial sobre os Montes Cárpatos e o Delta do Danúbio. Especialmente recomendado para os apaixonados e curiosos por aquele país europeu. https://www.youtube.com/watch?v=WuOfq8-7ZT0

18 de dez de 2013

O ANIMAL: Uma consciência silenciosa



por Jean-Guy Riant
(traduzido por Raul Passos a partir da revista "Rose-Croix" n°248, editada pela Grande Loja de Jurisdição de Língua Francesa da Ordem Rosacruz - AMORC)

  
“Os problemas impostos pelos preconceitos raciais refletem em escala humana um problema muito maior e cuja solução é ainda mais urgente: o das relações entre o homem e as demais espécies viventes... O respeito que desejamos obter do homem para com seu semelhante é apenas um caso particular do respeito que ele deveria manifestar para com todas as formas de vida...”. (Claude Lévi-Strauss)

            A dificuldade em saber se o animal possui de fato uma consciência é uma questão tão antiga quanto a própria humanidade. O homem jamais gastou tanta energia e jamais demonstrou tanta vontade quanto para se soltar de sua hipotética condição animal e, paradoxalmente, jamais conseguiu se separar daquele que foi o companheiro de toda a civilização humana. Esse elo ancestral que fascina pensadores de todos os tipos, sejam eles filósofos, cientistas ou até mesmo teólogos, legou uma literatura abundante, por vezes milenar, sobre o assunto da consciência animal, ponto principal que nos preocupa aqui. O animal sofre? Ele pensa? Pode refletir? Pode sentir emoções? Está consciente da morte – ou de sua morte?

            Entre os povos primitivos – no sentido de “primeiros”, e não de “subdesenvolvidos” – o animal possui, se não uma alma, ao menos uma mente. É algo inconcebível para esses povos que o animal não seja um ser pensante. Estes seres misteriosos de pêlos, penas ou escamas dão prova de tal inteligência e tanto fascinam por suas aptidões que perturbam o homem em sua natureza mais interior e mais sagrada num magnífico elo místico por natureza.

            Entre os gregos antigos, essa questão da consciência fascinava e animava os debates filosóficos, causando até mesmo repercussões sociais. Logo, era necessário definir o animal para saber quem era o homem, um não podendo existir senão se comparado com o outro, o que levou certos autores a escrever que “sem os animais, o mundo não seria humano”. Essa dicotomia profunda entre humanidade e animalidade tem sua fonte naquela época. Procura-se diferenciar de maneira absoluta o homem da besta, a civilização da barbárie e a “humanidade” daquilo a que chamaremos de “animalidade”.

            As regiões monoteístas acentuarão por sua vez essa tendência sacralizando o homem sem levar em conta por vezes a Criação. Nenhum versículo, a não ser o do Gênese bíblico (Gn 1, 28), proporcionou tantas desculpas para os comportamentos mais inumanos para com os animais. Lá está dito de fato que “Deus os abençoou [Adão e Eva] e lhes disse: sede fecundos e prolíficos, cobri a terra e a dominai; subjugai os peixes no mar, os pássaros no céu e todos os animais que se movem sobre a terra”. Porém, muitas outras passagens insistem na sabedoria animal. Nessa concepção de sabedoria, a inteligência é absoluta: o animal nasce perfeito? Sim, de acordo com os jesuítas, que inventaram a expressão “de instinto”, para não dizer que o animal era inteligente, ou – suprema blasfêmia – consciente. E sim também de acordo com René Descartes, rosacruz que, querendo devolver ao homem seu justo lugar numa Europa inquietante e inquisitória, tentou mais uma vez efetuar a comparação, desta vez de ordem metafísica: o homem é o pensamento, originando a palavra articulada.

            Descartes não compreendia bem o furor contra sua concepção dos “animais-máquinas”, que ele regularmente corrigiu ao longo de suas “objeções”, percebendo a imprecisão que envolvia sua teoria. Em outras palavras, para ele o animal tinha uma inteligência corporal e não-reflexiva – isto sob influência da poderosa igreja romana, que havia desposado a concepção de Aristóteles no nível de uma alma tripartida (nutritiva, sensitiva, reflexiva). Apenas a nutritiva e a sensitiva animariam os animais, perfeitos autômatos de Deus. Numa carta datada de 5 de fevereiro de 1649, ele chegou a escrever o seguinte: “Todavia, ainda que, como uma coisa demonstrada que não saberíamos como provar, haja pensamentos nas bestas, não creio que se possa demonstrar o contrário, pois o espírito humano não pode penetrar o coração delas”.

            Os partidários acirrados de Descartes, como Malebranche por exemplo, castraram as mentalidades ocidentais quanto aos animais ainda mais do que o fez a própria filosofia, pois seus defensores irão ainda mais longe. No furor dogmático do sagrado que reinava na época, acabar-se-á por afirmar que apenas a alma reflexiva existe. Consequentemente, os organismos de toda a Natureza são rebaixados ao plano de autômatos, certamente sutis, mas ainda assim autônomos, desprovidos de qualquer forma de alma – em outras palavras, de pensamento ou de mente. Esta concepção redutora, amplamente difundida pela Igreja por razões teológicas (pois resvalou-se no “Homem-máquina”), justificará de alguma forma as piores crueldades infligidas ao mundo animal.

            Charles Darwin será o primeiro a de fato lançar a pedra na lagoa ao publicar, no século XIX, diversas obras nas quais as observações comportamentais que ele fará quanto aos animais causarão uma reviravolta nas relações que o homem podia ter com o animal até então. O período industrial rebaixa ainda mais o animal à categoria de objeto para justificar sua exploração e a vivisseção. Veremos nascer as primeiras sociedades de defesa dos animais na Inglaterra. Infelizmente, o dogma lançado por nossa modernidade, não-passível de discussão e ainda tenaz em nossos dias, permanece: apenas o homem possui uma alma no sentido espiritual ou psicológico do termo, apenas o homem pensa, apenas o homem é capaz de reflexão, de altruísmo, de moral, de amor, de sentido de sagrado... Essa breve recapitulação histórica era necessária para que compreendêssemos um pouco que fosse da relação tumultuada que o homem sempre manteve com o reino animal.

            O assunto da consciência animal deve ser abordado com extrema prudência, inicialmente porque é difícil dar uma definição de consciência por si mesma, e também porque a consciência nos organismos vivos tem essa particularidade de se encaixar à moda das matrioshkas russas. Para termos uma imagem concreta disso, os cientistas reconhecem no homem a existência de um cérebro reptiliano e de um cérebro mamífero. Um será mais ligado aos instintos e o outro às emoções.

            Nesse contexto, o termo atualmente muito empregado de “animalidade”, pressupostamente destinado a ser a contraparte do termo “humanidade”, deve ser utilizado com circunspecção. De fato, isso pode redundar em considerar que a animalidade reúne em seus extremos todas as formas de vida e de consciência animal e as põe em pé de igualdade. Nesse caso, coloca-se no mesmo patamar, na escala da consciência, uma ostra e um chimpanzé... É necessário prudência, pois generalizações não podem ser feitas. Quanto mais a consciência se refina em suas manifestações, mais difícil será se esquivar das generalizações, pois se haverá de convergir insensível e invariavelmente para o conceito de “Indivíduo”.

            Assim sendo, somos mais sensíveis – é fato – aos animais biologicamente mais próximos a nós. Talvez seja também por essa razão que, quando falamos de animais, o homem é naturalmente levado, por fenômeno de empatia, a se representar como um mamífero, assim como um cão, um gato, um cavalo, um elefante ou um leão, e muito mais raramente como um réptil ou um peixe. Desse modo, e a fim de estabelecer balizadores para guiar esse estudo, referiremo-nos regularmente ao “animal” no sentido geral do termo. Contudo, será preciso termos em mente a extrema multiplicidade de formas que isso pode assumir, pois veremos que certos animais, por mais simples ou pequenos que sejam, encerram um tanto de surpresas para uma pessoa de espírito aberto.

            A primeira questão que poderia ser feita é sobre o sofrimento animal e que forma este sofrimento pode ter. Durante muitíssimo tempo, era costumeiro pensar que o sofrimento era submetido ao pensamento. O Ocidente, como vimos, tendo recusado o pensamento ao animal, recusou-lhe também ao mesmo tempo a sua capacidade de sofrimento. Citávamos Malebranche, e é ele quem manifesta a concepção mais redutora e a mais desumana. A história relata que um homem se indignou ao ver Malebranche bater numa cadela grávida e foi interpelá-lo. Malebranche lhe respondeu que os gritos emitidos pelo animal eram apenas um mecanismo dos órgãos e do ar e que era absolutamente pueril considerar o sofrimento animal como um sofrimento real. Como agora sabemos, o sofrimento é conduzido pelo sistema nervoso e, ainda que o pensamento não esteja totalmente excluído do processo, ele não desempenha o papel absoluto que se acreditava. Assim, é preciso que levemos em consideração que todo animal dotado de sistema nervoso é capaz de sofrer. É impossível negar essa evidência científica. É preciso no entanto levar em conta igualmente o grau de sofrimento.

            Alguns insetos, como por exemplo o lucano (espécie de escaravelho), munido de impressionantes defesas, quando em combate com outros machos por vezes têm a cabeça decapitada: os dois segmentos do animal – a cabeça separada do tronco – são ainda capazes de viver independentemente um do outro durante mais de uma semana. Podemos também elencar certos vermes que, cortados em dois, originarão dois indivíduos; ou ainda a raposa que, pega numa armadilha, não hesitará em roer sua pata de modo a seccioná-la e se livrar da emboscada... Estas situações, incríveis do ponto de vista humano, não excluem o sofrimento, mesmo que esses animais sobrevivam às mutilações.

            Mas qual é fundamentalmente o papel do sofrimento? Ainda que isso pareça paradoxal, ele protege o corpo orgânico, suporte da vida. É um ferrão que indica o umbral que não deve ser cruzado para a preservação do corpo físico. E com que objetivo? Na filosofia rosacruz, a vida em geral e as diferentes formas de existência em particular acumulam experiências para perfazer a expressão de uma consciência cada vez mais ampla. Para tanto, é preciso que admitamos uma forma de memória, e essa memória se produz em ligação com o presente através do pensamento. Existem memórias rudimentares, outras mais elaboradas, e talvez mesmo uma forma de memória ou de inteligência mais sutil que poderíamos evocar, no que se refere ao instinto.

            O pensamento no animal não é mensurável em estrito senso da mesma forma como o é no humano. Alguns cientistas medem o pensamento em microvolts... Isso porém não revela informações sobre seu conteúdo. O mesmo ocorre com o animal. Tentar compreender o animal unicamente segundo os critérios do pensamento humano é um verdadeiro caminho para aquilo que alguns tanto condenam: a antropomorfização, ou seja, a projeção dos afetos humanos sobre os animais. Wittgenstein escreveu a esse respeito: “Se um leão falasse, não poderíamos compreendê-lo”. Os gregos já refletiam sobre a eventualidade de o animal formular uma representação do mundo que lhe seja própria. Para essa representação do mundo, virtual ou abstrata, salientamos, é preciso uma determinada forma – ainda que elementar – de reflexão.

            Ora, essa faculdade que pensávamos até aqui ser propriedade exclusiva do homem e de alguns mamíferos superiores está espalhada bastante amplamente pelo mundo animal. Um dos exemplos mais chocantes é o de um animal que acompanha o homem há milênios – e não é o cachorro, o gato ou o cavalo, que poderíamos todos evocar longamente –, mas um que nos acompanha de forma muito mais modesta: a abelha. Os trabalhos de Frisch, comentados por Sir John Eccles, são a esse respeito interessantes sob todos os ângulos. Ele não apenas pôs em evidência a existência de uma linguagem simbólica entre as abelhas, executada com a ajuda de uma dança que informa as outras abelhas quanto à presença de uma fonte de alimento, à distância e à direção em que esta se encontra, como também ressaltou outro fato menos conhecido e que servirá aqui ao nosso propósito: o enxameamento.

            Quando o enxame é formado e as abelhas buscam um local para abrigar a colônia, várias delas partem para explorar as cavidades, grotas ou outros endereços suscetíveis de lhes oferecer um abrigo confortável, próximo às fontes de alimento, em que haja incidência de sol, umidade e que esteja a salvo dos predadores. Quando as abelhas regressam, elas executam a famosa dança destinada a informar suas congêneres. Fato extraordinário é que é preciso uma unanimidade para que o enxame se desloque e, para tanto, é necessário que as abelhas façam uma escolha. Para complicar a situação, acontece de algumas delas não estarem de acordo, cada qual dançando para o endereço que encontrou. Nesse caso, cada abelha se desloca até o outro local para inspecioná-lo e verificar se ele é mais acolhedor do que o seu. Algumas vezes ela insiste e outras vezes muda de ideia. A abelha dá prova de representação, de comunicação simbólica, de comparação, de reflexão e, por fim, de escolha. Lembremos que a abelha possui apenas alguns milhares de neurônios, comparados aos bilhões de um cérebro humano...

            Essa consciência nascente do mundo animal é fácil de se identificar entre os animais sociais, e ainda mais entre os mamíferos. A vida em sociedade exige que cada qual encontre seu lugar e isso só pode se fazer evidentemente numa relação com um novo conceito. Esse tipo de organização é uma mão estendida à consciência para uma nova progressão no animal, pois ela incita a considerar o outro e a cooperar com ele para a coesão e a sobrevida da microssociedade estabelecida. Dessa necessidade nascerá a empatia – a capacidade de se colocar no lugar do outro e imaginar o que ele sente. Este é o caso, agora reconhecido, dos grandes símios, dos elefantes, dos golfinhos e muito provavelmente das baleias. Essa empatia oferece numerosas vantagens à consciência animal, originando muitos exemplos de altruísmo, o que oferece aos filósofos debates suficientes sobre a moral e a ética entre os animais. Assim, as leoas tomam conta das mais idosas entre elas, caçando em seu lugar e chegando até mesmo a pré-mastigar a comida para aquelas cuja dentição já esteja muito desgastada. Encontramos esse comportamento entre os cavalos selvagens, entre os elefantes que tomam conta de seus semelhantes mais fracos ou dos que foram mutilados, e ainda em muitos outros casos...

            Esse tipo de comportamento não oferece portanto nenhuma explicação puramente evolucionista satisfatória. Na filosofia rosacruz, o altruísmo é um atributo potencial de certo grau de consciência, que aqui os animais possuem. A empatia porém oferece também, em estado embrionário, a consciência de si e de se fazer escolhas. Ora, revela-se que, como dizíamos, esse altruísmo é potencial e só se desenvolve ao ser solicitado. A capacidade de imaginar aquilo que o outro pode sentir também possui um lado contrário...

            Para ilustrar isso, citaremos os chimpanzés, que são extremamente hierarquizados. A luta pelo poder preocupa o conjunto da comunidade, originando coalizões que se estendem por vezes durante vários anos. O chimpanzé é agitado e por vezes muito agressivo, sendo capaz de chegar a cometer uma morte premeditada. Assim, Jane Goodall, primatologista célebre mundialmente, fez nos anos 1980 a seguinte observação, que ela hesitou em tornar pública, tamanha a perturbação que ela lhe provocou:

            Chimpanzés patrulhavam e velavam ciosamente pelo território de sua colônia. Um dia, um casal de chimpanzés estranhos à comunidade, tendo penetrado na zona proibida, foi violentamente agredido. A fêmea conseguiu escapar, refugiando-se no alto de uma árvore. O macho foi morto sem cerimônias. Esta foi a primeira vez em que o homem constatou no meio animal uma “deformidade” das especificidades “humanas”: o assassinato. E para perfazer a situação, atraído pelo ruído do tumulto, o macho dominante, vendo a fêmea, manifestou-se ruidosamente. Esta, descendo da árvore, fez o gesto de amizade e de submissão e tentou um abraço de reconciliação. O macho dominante se afastou violentamente dela e, tomando uma folha de árvore, raspou precisamente o local em que havia sido tocado pela fêmea desconhecida... Uma primeira forma de hostilidade? A fêmea porém, após diversas tentativas, foi finalmente admitida no clã e não foi morta. Quando a consciência se afina, como no caso dos macacos, a escolha se impõe a nós.

            Terminaremos esse estudo com a consciência da morte entre os animais e o possível nascimento do sagrado entre eles. Por muito tempo também, e porque o homem honra seus mortos por meio de rituais fúnebres, pensou-se que o homem era capaz de perceber essa mudança de estado que é a morte. Mais uma vez a observação atenta dos animais revelou o contrário. Quais são as razões que levam uma gazela a fugir de um leão? Seria simplesmente instintivo ou porque ela seria capaz de pressentir sua morte iminente? De fato, é difícil responder essa pergunta. Foi observado que, muitas vezes, gazelas se amontoavam, arriscando suas próprias vidas, parecendo fascinadas em contemplar um leão devorando uma de sua espécie.

            Todavia, a percepção da morte como mudança de estado existe entre muitos animais, e especificamos mais uma vez que isso não ocorre unicamente entre os mais evoluídos. As formigas, por exemplo, possuem no formigueiro uma câmara especial na qual depositam os cadáveres de suas congêneres. Não há cultos observáveis, mas qual seria portanto o interesse evolutivo de se conservar os cadáveres? Por que não se livrar deles no exterior do formigueiro? Os elefantes acompanham seus mortos e conhecem um ritual fúnebre particularmente emocionante. Os macacos também fazem rituais e cobrem o corpo com galhos. As baleias ajudam até o último suspiro as suas congêneres no fim da vida e as mantêm na superfície. Destacamos assim a grande emoção sentida pelos animais sabendo da morte de seu mestre, indo até a tumba e por vezes mesmo deixando-se morrer também.

            Tratamos até esse momento da morte do outro. Mas poderia o animal ser consciente de sua própria morte? Para responder essa pergunta seria necessário que penetrássemos a mente de um animal. Isso é materialmente impossível, contudo através da linguagem isso poderia ser concebível. No momento, os únicos animais capazes de se comunicar com o homem por meio de uma linguagem comum, a linguagem americana de sinais, são os grandes símios. O caso que nos interessa aqui é o de Koko, um gorila apaixonado por gatos ao qual foi ensinada a linguagem dos sinais. Eis o que Koko respondeu quando lhe fizeram perguntas sobre a morte:

Pergunta: “Para onde vão os gorilas quando morrem?”
Koko: – “Confortável – buraco – adeus”.
P.: “Quando morrem os gorilas?”
Koko: – “Preocupações – velhos”.
P.: “Como os gorilas se sentem quando morrem? Felizes, tristes, amedrontados?”
Koko: – “Dormir”.

            Este não é o único caso espontâneo conhecido que possa deixar presumir a consciência da morte num animal: é também conhecido agora o do gorila-de-dorso-prateado Michael, órfão que foi criado com Koko. Perguntado sobre sua mãe, ele evocou a lembrança que tinha do seu massacre por caçadores na floresta africana quando era bebê, explicando: “desordem-[para]-carne-gorila, fazer careta-batalha, gritar-de-dor, tumulto-ruidoso, terror-mágoa-enfrentar-fazendo careta, cortar-o-pescoço, boca-mãe-[ficar]-aberta” (tradução aproximada da ASL – Linguagem Americana de Sinais). Relata-se por outro lado que quando os caçadores africanos penetram uma floresta e se deparam com uma mãe chimpanzé com seu filhote, caso o homem esteja armado, ela coloca espontaneamente o pequeno à sua frente: estaria ela consciente do perigo de sua morte e, caso estivesse, esperaria a compaixão do caçador? Se for este efetivamente o caso, então as emoções que ela evoca são as mesmas no chimpanzé e no homem.

            Essa proximidade emocional partilhada com os animais nos conduz irremediavelmente à questão do sagrado. É bastante extraordinário ver que certos animais, como os ursos por exemplo, ou os grandes símios, permanecem por horas diante de um pôr-do-sol ou de uma belíssima paisagem, igualmente hipnotizante para o homem. Esses animais possuiriam uma noção de estética? Essa contemplação produziria na consciência animal uma intensa emoção de beleza? Esse breve momento de harmonia exterior convocaria a harmonia da consciência interior a se manifestar?
            Muitos pontos diferentes foram abordados nesse texto, porém há outros que mereceriam ser ditos ou salientados. Muitos de nós certamente vivenciamos momentos intensos com os animais e deles temos compreensões distintas. Cada qual é livre para formar suas opiniões a esse respeito.

“Olha teu cão nos olhos e não poderás afirmar que ele não tem alma”.

(Victor Hugo)

6 de dez de 2013

LIBERDADE! (Victor Hugo)




Com que direito pões pássaros em gaiolas?

Que direito tens tu, que o das aves violas?
Por que as roubas das nuvens... auroras... nascentes?
Por que privas da vida esses seres viventes?
Homem, tu crês que Deus, o Pai, faria nascer
Asas p’ra que à janela as fosses suspender?

Se não o fazes, hás de viver descontente?
Que é que te fizeram esses inocentes
Para que os condenasses, com a fêmea e seu ninho?
A desventura deles é o nosso caminho!
Talvez o sabiá, que do seu galho roubamos,
E o infortúnio que aos animais nós causamos
E a escravidão inútil que impomos às bestas
Qual Nero não cairão sobre nossas cabeças?
E se o cabresto então desprendesse os grilhões?
Oh! Quem sabe o desfecho de nossas ações,
E que fruto nefasto estarão produzindo
As cruezas que na Terra perpetramos rindo?
Quando aprisionas sob o ferro de uma grade
Pássaros feitos para o azul da liberdade,
Os nadadores do ar que arribam por aqui
 – Pintassilgo, chopim, pardal ou bem-te-vi –,
O bico ensanguentado deles – ouve bem! –
Ao se bater nas grades fere a ti também!

Tem cuidado com teu julgamento furtivo!
Deus olha em toda parte onde grita um cativo.
És incapaz de ver que és sórdido e cruel?
A esses detentos abre a porta para o céu!
Aos campos, rouxinóis! Aos campos, andorinhas!
Perdoai o que fizemos às vossas asinhas!
E a ti, pois, da justiça as misteriosas redes,
Pois são masmorras que ornamentam tuas paredes!
Das treliças com fios de ouro nascem bastiões;
A perversa gaiola é a mãe das prisões.
Respeita o augusto cidadão do ar e do prado!
Tudo aquilo que aos pássaros é confiscado
O destino, que é justo, toma dos humanos.
Temos tiranos, pois somos também tiranos.
Queres ser livre, ó homem? Pois pensa primeiro,
Se tens em casa um testemunho prisioneiro...

A sombra ampara aquilo que parece instável.
A imensidade inteira a essa ave miserável
Vem se prostrar; e te condena à expiação.
É estranho, ó opressor, que grites: “opressão!”
Tens sorte agora enquanto tua demência arrasa
A sombra desse escravo no umbral da tua casa;
Porém essa gaiola com a ave infeliz
Encarna nessa Terra triste cicatriz.


Tradução de Raul Passos

18 de nov de 2013

TESTAMENTO e outros poemas de Tudor Arghezi em tradução de Raul Passos



A 7ª edição de "(n. t.) - Nota do Tradutor", revista literária de tradução, publicada nesse fim de semana, traz alguns poemas do romeno Tudor Arghezi em português, com tradução de Raul Passos. Inédita em língua portuguesa, a poesia de Arghezi é considerada de difícil apreensão até mesmo para nativos da língua romena. Em seus versos coexistem elementos tipicamente simbolistas com imagens características da realidade e do imaginário romenos – ingredientes amalgamados por uma escritura altamente pessoal e temperados pelo uso pontual de arcaísmos. Em Arghezi, a poesia do banal e do áspero é forjada com maestria e alardeia uma inspiração peculiar.

Além de Arghezi, outro romeno figura nessa edição: Paul Celan, através da tradução de Fernando Klabin.

Link para a revista: http://www.notadotradutor.com/revista.html

2 de ago de 2013

SEGREDO - Octavian Goga (tradução para o português)

SEGREDO

Amada minha, com secretas chaves trancada,
Por anos a fio sigo de ti sendo o portador,
Pelos caminhos contigo vou, levando-te guardada,
Com calafrios de ciúme, no coração vais encerrada
Como o pólen no cálice da flor.

A guerra do mundo ruge em torno de mim
Ressoa uma tormenta herética e flamejante
Ao redor desabam poeira e lama sem fim
Ninguém sabe do triste comboio que assim
Arrasto no peito comigo constante.

Tu, grito selvagem, que de centenas de covis eclodes,
Em vão no meu ouvido vociferas
Pelos portais da vida e nas metamorfoses,
Ela vem comigo e roubá-la não podes,
– Um mistério de antigas eras.

Quando sobre a janela fechada a noite indulgente
Vem descendo, e não há ninguém em minha casa,
Tal como se de outras paragens procedente,
Planando em seu voo indolente,
O meu sonho frágil toca-me com sua asa.

Então os teus tesouros começam a se desfazer
E o paraíso desce à terra em frenesi
E à janela os rouxinóis que vêm descer
Cantam todos tua melodia ... escuto-os até o amanhecer ...
Amada minha... Também eu canto a ti...

                                       Tradução de Raul Passos


Octavian Goga (1881-1938)
TAINA

Iubirea mea-nchisă cu tainic zăvor,
Te port printr-al anilor șir,
Te port și cu tine pe drum mă strecor,
Păzindu-ți în suflet temutul fior
Ca floarea polenu-n potir.

În jurul meu urlă al lumii război
Cu vifor flămând și păgân,
În jurul meu cade și praf și noroi,
Și nimeni nu știe din tristul convoi
Ce strâng eu statornic la sân.

Tu, chiot sălbatic din sute de guri,
Zadarnic îmi strigi în urechi,
Prin vămile vieții și prin cotituri,
Ea vine cu mine și nu poți s-o furi,
O taină din zilele vechi.

Când noaptea-mi coboară la geamul închis
Și-n casa mea nimenea nu-i,
Ca de pe alte tărâmuri trimis,
În zboru-i molatic, plăpândul meu vis
M-atinge cu aripa lui.

Atunci se desfac ale tale comori
Și raiu-mi aduc pe pământ,
Atunci la fereastră-mi vin privighetori
Și toate te cântă... le-ascult până-n zori...
Iubirea mea și eu te cânt...
                                  OCTAVIAN GOGA

ENTARDECER - Tudor Arghezi (tradução para o português)

ENTARDECER

Uma aranha, qual verruga,
Marcha longe e com rigor.
Basta vê-la e não refuga
Nem carências e nem dor.

Ela vem de seu ofício,
Não hesita na sua trilha.
Lá em cima a espera, propício,
O lar feito na vasilha.

Não me vê, nem dá por mim,
– Quem eu sou não vale a pena –.
Por que sou tão grande assim?
Por que ela tão pequena?

           Tradução de Raul Passos
  

Tudor Arghezi (1880-1967)

 SEARA

Un păianjen, ca un neg,
Umblă lung în şase peri.
Abia-l vezi şi e întreg
Cu nevoi şi cu dureri.

Vine de la munca lui,
Nu se-nşală de picior,
Îl aşteaptă, colo-n cui,
Casa prinsă de urcior.

Nu mă vede, nu mă are,
Nu mă ştie de nimic.
De ce-oi fi atât de mare?
De ce-i el atât de mic?
                                            TUDOR ARGHEZI

30 de jul de 2013

RÛMI (1207-1273)

   

Uma tradução de um célebre poema, "A Morte", escrito por Mawlana Jalal al-Din Muhammad Rumi, ou simplesmente Rûmi (1207-1273), grande poeta e místico persa, fundador da ordem dos derviches. Esse poema consta dos Mathnawi ("Dísticos") que, além de concentrar a quintessência da poesia esotérica de Rûmi, são considerados uma das obras-primas da literatura persa. O alcance espiritual da poesia de Rûmi é comovente e ainda reverenciado nos dias de hoje.

A MORTE

Vê, fui pedra e morri. E planta sendo, floresci.
Morri planta e animal renasci.
Tendo morrido animal, tornei-me homem. Que tenho, pois, a temer?
A morte não pode me extinguir,
Pois, novamente, homem morrerei
E asas de anjo terei.
Porém, também anjo serei sacrificado,
Para ser, algo que não posso compreender, um sopro do Divino.
RÛMI (1207-1273)

Tradução de Raul Passos

8 de jul de 2013

RAUL PASSOS E PENELOPE WHITE EM LONDRES



No próximo dia 12 de julho, às 18h30, no Schott Music Recital Room, em Londres, a mezzo-soprano inglesa Penelope White e o pianista Raul Passos farão um concerto de canções de câmara contemplando compositores brasileiros e europeus, dentre os quais Francis Poulenc (cujos 50 anos de morte são lembrados esse ano) e Benjamin Britten, lembrado pelo mundo da música em 2013 por seu centenário de nascimento. O recital acontece sob os auspícios da ILAMS - Iberian and Latin American Music Society.

Schott Music Room

ILAMS - The Iberian and Latin American Music Society

Do programa do recital, constam:

FERNÂNDEZ, Lorenzo            -                              Dentro da Noite
(1897-1948)                                      

TAVARES, Hekel                          -                              Canção do Guerreiro
(1896-1969)                                      

POULENC, Francis                    -                              Mirois Brûlants
(1899-1963)                                                                       *Tu Vois le Feu du Soir
  *Je Nommerai ton Front

MONTSALVATGE, Xavier     -                              Cinco Canciones Negras
(1912-2002)                                                                      *Cuba Dentro de un Piano
                                                                                                 *Punto de Habanera
                                                                                                 *Chévere
                                                                                                 *Canción de Cuna para Dormir a un Negrito
                                                                                                 *Canto Negro

 VILLA-LOBOS, Heitor             -                              Dois Poemas Indígenas
(1887-1959)                                                                      *Canide-Ioune Sabath
                                                                                                *Teirú

SANTORO, Claudio                   -                              Prelúdios 1 & 2 (piano solo)
(1919-1989)

BRITTEN, Benjamin                 -                              Cabaret Songs
(1913-1976)                                                                       *Tell me the Truth About Love
                                                                                                 *Funeral Blues
                                                                                                 *Johnny

                                                                                                 *Calypso

27 de jun de 2013

SAINT-GERMAIN: MÍSTICO, POETA E MÚSICO

Uma tradução, do francês, de um poema do Conde de Saint-Germain, místico europeu nascido na Transilvânia, hoje Romênia, no século XVIII. Uma das mais enigmáticas e admiradas figuras do esoterismo. 


Buscador contumaz, sondei a Natureza
Do grande Todo conheci o princípio e o fim
Latente, na jazida, o ouro vi em sua grandeza,
A matéria captei e seu gérmen colhi assim.

Expliquei por quais artes, na entranha materna,
A alma constrói sua casa - a seduz, como um grão,
Qual trigo posto na poeira sempiterna -,
- Planta e vinhedo sendo, são o vinho e o pão.

Nada havia. Deus quis! Surgiu alguma cousa.
Descri; busquei o nada onde o mundo repousa.
- “Nada” era o equilíbrio e provia o suporte.

Por fim, com o peso do elogio e da censura,
Ele chamou minha alma; abri-me à Forma Pura.
Venerei-O! Mais nada havia... Minha morte!

                                        CONDE DE SAINT-GERMAIN (1707?-1784)
                                        Tradução de Raul Passos