"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos." (Marguerite Yourcenar)

«Adevăratul loc de naştere este acela unde pentru prima dată ai aruncat asupra ta însuţi o privire pătrunzătoare» (Marguerite Yourcenar)

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31 de ago. de 2018

31 DE AGOSTO - DIA DA LÍNGUA ROMENA




Hoje, 31 de agosto, é o Dia da Língua Romena. 

Há dez anos cheguei na Romênia pela primeira vez, não sabendo mais do que algumas expressões elementares. Um ano mais tarde, ao voltar para o Brasil, já estava “envenenado” e enfeitiçado pela língua de Mihai Eminescu e Mircea Eliade. No decurso dos sete anos seguintes, me fiz tradutor, e o romeno – ao lado do francês – foi objeto constante da mais dileta das minhas atenções. Nesse intervalo de tempo, muitas idas e vindas Curitiba – Bucareste, muito estudo, muita leitura e um envolvimento cada vez maior. 

Traduzi documentos ordinários, contratos de jogadores de futebol, atestados de óbito, sentenças judiciais e até tirei um romeno da cadeia... E publiquei também minhas primeiras traduções literárias – poesia de Tudor Arghezi e Octavian Goga –, e também prosa, artigos de revista... Há um ano e meio, moro em Bucareste e – mesmo pensando, falando e existindo em romeno a maior parte do tempo –, continuo me surpreendendo a cada dia com as possibilidades da língua.

Em romeno, você não deixa alguém louco; você o “tira da melancia” (a-l scoate din pepene).

Você não quebra regras, mas sim “pisa na lâmpada” (a călca pe bec).

A pessoa não perde as estribeiras; “salta-lhe a mostarda” (îi sare muștarul).

O indivíduo, na Romênia, não fica perdendo tempo, mas sim “esfregando menta” (a freca menta).

O romeno não mente jamais; ele te “vende rosquinhas” (a vinde gogoși).

Ele não tenta passar a conversa em quem entende do assunto; ele “vende pepino pro jardineiro” (a vinde castraveți grădinarului).

O romeno não engana ninguém; ele “passeia com a gralha pintada” (a umbla cu cioara vopsită).

Na Romênia não se casa; “põe-se a nora no forno” (a aduce noră pe cuptor).

E você leu tudo isso e prendeu a respiração? Não, você “puxou a sua alma” (a-și trage sufletul).

7 de ago. de 2018

DO CAMINHO - Tudor Arghezi (tradução para o português)


DO CAMINHO
P’ra ti eu canto, distante e além,
Meus cantos clandestinos e ignorados.
Queixumes literários vão também,
Manuscritos e datilografados.
Passa o tempo a galope, de través,
Sem que eu queira saber, frágil leitora,
Dos meus versos varonis receptora,
Nem quem sou eu, nem mesmo quem tu és.

A árvore dadivosa, quer não quer,
As folhas argentinas perde em vão.
Caem por onde passa um qualquer,
No chapéu, ou talvez no coração.

Ah, sol, vais mansamente despertando!
Tua luz não há de se tornar escassa
Se os teus raios tu fores derramando
Assim descuidadamente em quem passa?
                        
Tradução de Raul Passos


DIN DRUM

Te cânt și-acum din depărtare,
Necunoscut, ascuns și tutelar,
Și-ți mai trimit aleanuri literare,
Cuvinte ’n manuscris și de tipar,
Fără să vreau, fragilă cititoare
A stihurilor mele bărbătești,
Să știu, trecând prin timp călare,
Nici cine sunt, nici cine ești.

Copacul darnic cu găteala lui,
De sus își pierde foi de-argintărie,
Cazând în drumul orișicui,
În suflet sau pe pălărie.

Au, soare, tu, ivindu-te domol,
Nu îți alungi, tu, fulgerile lungi,
Nu-ți verși lumina toată ’n gol,
Nepăsător pe cine îl ajungi?
                                                TUDOR ARGHEZI

CONVOCAÇÃO - Tudor Arghezi (tradução para o português)




CONVOCAÇÃO

De inférteis e secas pedras surgiu
Um filetinho de erva inaudito
E o seu cimo, apontando ao infinito,
Lançava estranhamente um desafio.

Fê-lo brotar o sol, de um seu fragmento.
Um farelo de terra o preparou
E delicado e casto germinou
De sacrossanta flor o filamento.

Na rua majestosa esmigalhado
Seco está no itinerário de asfalto,
Mas tem parte com o céu que fala do alto
– Lhe instrui o firmamento abobadado.

Quando numa taça o lácteo manjar
A noite lhe traz, ele, agradecido
Se alegra se um mosquito empedernido
Na sua áurea inflorescência vem pousar.

                                    Tradução de Raul Passos





CHEMAREA

Din pietre sterpe și uscate
Un fir de iarbă s-a ivit
Și vârful lui în infinit
A cutezat, străin, să cate.

Născut dintr-un crâmpei de soare
Și o fărâmă de pământ,
Firul gingaș, curat și sfânt
A-mbobocit și-a dat o floare.

Strivit în ulița măreață
Secat de drumul de asfalt,
El e de-un fel cu cerul înalt,
Care de sus îi spune și-l învață.

Și, mulțumit că drept merinde,
I-aduce lapte noaptea în pahar,
Se bucură când un țânțar
De moțu-i auriu se prinde.

                                    TUDOR ARGHEZI

29 de jun. de 2017

QUADROS BUCARESTINOS II


1 – OS CIGANOS
                                   (à Érica Santana)

A última réstia vai se deitar no ocidente
e meu espírito irrequieto, em brasa
– lume ansioso que já não sabe o que espera –,
se transfigura em chama na tentativa impossível de plenitude.

O bulevar em torno é ruído, cinza e mácula.
Ali, onde uma solitária luz em vão fere a sombra,
os ciganos saem em alarde – dez, doze, quinze...
Transmutam a rua em insólito carnaval

Já não sei em que paragens deixei minha vontade
– Semente lançada ao vento sem cuidado,
foi dar um fruto ignorado em paisagens irreais –
E me abandono em sonho desperto à fantasia dos manuches.

A lua, lume imperioso, bruxuleia entre os ramos
que vêm roçar o balcão de onde assisto ao burburinho.
O cântico recomeça – dolente, misterioso, provocante –
E eu... parece que escuto uma saudade ancestral
– Confissão secreta que não faço nem ao vento –
enquanto lá embaixo, em roda, eles ensaiam
antigas fórmulas de amor e de quebranto

Os eflúvios do tabaco vão buscar no breu que tudo invade
uma pista que conduza ao outro lado

Tudo o mais parece ser engano
Ilusão, perfídia, desconsolo...
Quem dera minha alma achasse também,
nas mãos de uma zíngara indolente,
qualquer repouso ou consolação

Já não sei ser descuidado
Há muito perdi a inocência e o deslumbre
O que me instiga, arrebata e consome?
Nada, que não seja insípido e opaco entendimento...

Ah, se ao menos nessa roda, nesse canto, nesse desconjuro
Minha voz encontrasse um qualquer papel
– Uma alegria verdadeira, uma mensagem a qual carregar –
E eu já não seria o taciturno que, à espreita
– resguardado pela noite –,
nada mais pode que não seja devaneio...
... se tudo fosse diferente, e num arroubo de certeza
extasiado e em transe eu me ergueria
e as minhas asas impossíveis, em tempestade
se lançariam incautas e certeiras pelo mundo
com a fúria de mil sortilégios

Mas que sonho há que dure para sempre?
O grito, o torpor e o encantamento se emudecem
Tudo retorna ao silêncio – gênese apocalíptico –
A noite se instala na estrada e em meu pensamento.

Uma solitária cigana se recolhe à tenda...
E enquanto recolho a cinza e as certezas

A última brasa do cachimbo se amalgama à derradeira luz da rua.

                                                           BUCARESTE, 04/06/2017

18 de nov. de 2013

TESTAMENTO e outros poemas de Tudor Arghezi em tradução de Raul Passos



A 7ª edição de "(n. t.) - Nota do Tradutor", revista literária de tradução, publicada nesse fim de semana, traz alguns poemas do romeno Tudor Arghezi em português, com tradução de Raul Passos. Inédita em língua portuguesa, a poesia de Arghezi é considerada de difícil apreensão até mesmo para nativos da língua romena. Em seus versos coexistem elementos tipicamente simbolistas com imagens características da realidade e do imaginário romenos – ingredientes amalgamados por uma escritura altamente pessoal e temperados pelo uso pontual de arcaísmos. Em Arghezi, a poesia do banal e do áspero é forjada com maestria e alardeia uma inspiração peculiar.

Além de Arghezi, outro romeno figura nessa edição: Paul Celan, através da tradução de Fernando Klabin.

Link para a revista: http://www.notadotradutor.com/revista.html

2 de ago. de 2013

SEGREDO - Octavian Goga (tradução para o português)

SEGREDO

Amada minha, com secretas chaves trancada,
Por anos a fio sigo de ti sendo o portador,
Pelos caminhos contigo vou, levando-te guardada,
Com calafrios de ciúme, no coração vais encerrada
Como o pólen no cálice da flor.

A guerra do mundo ruge em torno de mim
Ressoa uma tormenta herética e flamejante
Ao redor desabam poeira e lama sem fim
Ninguém sabe do triste comboio que assim
Arrasto no peito comigo constante.

Tu, grito selvagem, que de centenas de covis eclodes,
Em vão no meu ouvido vociferas
Pelos portais da vida e nas metamorfoses,
Ela vem comigo e roubá-la não podes,
– Um mistério de antigas eras.

Quando sobre a janela fechada a noite indulgente
Vem descendo, e não há ninguém em minha casa,
Tal como se de outras paragens procedente,
Planando em seu voo indolente,
O meu sonho frágil toca-me com sua asa.

Então os teus tesouros começam a se desfazer
E o paraíso desce à terra em frenesi
E à janela os rouxinóis que vêm descer
Cantam todos tua melodia ... escuto-os até o amanhecer ...
Amada minha... Também eu canto a ti...

                                       Tradução de Raul Passos


Octavian Goga (1881-1938)
TAINA

Iubirea mea-nchisă cu tainic zăvor,
Te port printr-al anilor șir,
Te port și cu tine pe drum mă strecor,
Păzindu-ți în suflet temutul fior
Ca floarea polenu-n potir.

În jurul meu urlă al lumii război
Cu vifor flămând și păgân,
În jurul meu cade și praf și noroi,
Și nimeni nu știe din tristul convoi
Ce strâng eu statornic la sân.

Tu, chiot sălbatic din sute de guri,
Zadarnic îmi strigi în urechi,
Prin vămile vieții și prin cotituri,
Ea vine cu mine și nu poți s-o furi,
O taină din zilele vechi.

Când noaptea-mi coboară la geamul închis
Și-n casa mea nimenea nu-i,
Ca de pe alte tărâmuri trimis,
În zboru-i molatic, plăpândul meu vis
M-atinge cu aripa lui.

Atunci se desfac ale tale comori
Și raiu-mi aduc pe pământ,
Atunci la fereastră-mi vin privighetori
Și toate te cântă... le-ascult până-n zori...
Iubirea mea și eu te cânt...
                                  OCTAVIAN GOGA

ENTARDECER - Tudor Arghezi (tradução para o português)

ENTARDECER

Uma aranha, qual verruga,
Marcha longe e com rigor.
Basta vê-la e não refuga
Nem carências e nem dor.

Ela vem de seu ofício,
Não hesita na sua trilha.
Lá em cima a espera, propício,
O lar feito na vasilha.

Não me vê, nem dá por mim,
– Quem eu sou não vale a pena –.
Por que sou tão grande assim?
Por que ela tão pequena?

           Tradução de Raul Passos
  

Tudor Arghezi (1880-1967)

 SEARA

Un păianjen, ca un neg,
Umblă lung în şase peri.
Abia-l vezi şi e întreg
Cu nevoi şi cu dureri.

Vine de la munca lui,
Nu se-nşală de picior,
Îl aşteaptă, colo-n cui,
Casa prinsă de urcior.

Nu mă vede, nu mă are,
Nu mă ştie de nimic.
De ce-oi fi atât de mare?
De ce-i el atât de mic?
                                            TUDOR ARGHEZI

7 de jun. de 2013

ENTREVISTA COM A EMBAIXADORA DA ROMÊNIA NO BRASIL

Link para a parte 1/3 da interessante entrevista com a Embaixadora da Romênia no Brasil, Diana Anca Radu (apesar do inábil apresentador, que por vezes eclipsa e encobre a entrevistada...).

http://www.youtube.com/watch?v=I8L-9jU-o-U

5 de abr. de 2013

PAIXÕES MUITO ALÉM DA TRANSILVÂNIA



Extraído do DIÁRIO DO COMÉRCIO DE 04/04/2013


Todos sabem qual é a bebida preferida do Drácula. Isso não significa, entretanto, que sua sede de "hospitalidade" tenha deixado de lado os vinhos propriamente ditos, produzidos na sua Transilvânia. No sombrio castelo nos Cárpatos, Drácula (Gary Oldman) tratou de servir vinho ao noivo (Keanu Reeves) da eterna amada (Winona Ryder). E já vagando pelos séculos à sua procura, foi com tintos que voltou a seduzi-la. Assim mostra o clássico Drácula de Bram Stoker (1992), dirigido com muito sangue por Coppola. Hoje, os produtores de vinhos da Romênia estão em plena campanha para seduzir novos consumidores mundiais, tratando de dar qualidade (com regras rígidas da União Européia) a uma atividade enraizada nesse canto mais sudeste da Europa há pelo menos 4 mil anos.
Cinco vinícolas de excelência (Carl Reh, Cramele Recas, Domeneniul, Murfatlar e Senator), reunidas na entidade Select Wines of Romania, trabalham para aumentar sua participação no mercado dos Estados Unidos – hoje apenas 7% de suas exportações vão para lá.
Quem atualmente viaja pela Romênia, atraído principalmente pelo fascínio do Conde Drácula – o histórico e o da ficção –, vai encontrar um país pontilhado de vinhedos, da Transilvânia ao delta do Danúbio, o rio que se abre para o Mar Negro. Além do apelo das variedades autóctones (Babeasca Neagra, Busuioca de Bohotin, Feteasca Alba, Feteasca Neagra, Feteasaca Regala, Tamaioasa Romaneasca, Sarba), os produtores fazem também propaganda da localização geográfica de seus vinhedos, cuidados na mesma latitude de importantes áreas de Bordeaux, Borgonha e do Piemonte. 
Os investimentos na indústria vinícola romena voltaram a crescer com as privatizações ocorridas em 1990, apagando um passado de declínio, quando os comunistas nacionalizaram e descuidaram de toda a produção. A Transilvânia é apenas uma das sete regiões demarcadas do país, um platô de onde saem principalmente vinhos brancos, feitos com a Feteasca Alba, a uva mais popular da Romênia, com mais de 22 mil hectares plantados. São vinhos bem balanceados, secos e semi-secos, com 11,5 a 12%. Com a Tamaioasa Romaneasca, os vitivinicultores romenos estão elaborando vinhos de um amarelo ouro cintilante, com aromas de flores e mel, bons para guarda. Os tintos da Babeasca Neagra e da Feteasca Neagra (na foto ao lado) são de um vermelho intenso, têm alta acidez e encheriam não só os olhos de Drácula.
José Guilherme R. Ferreira é membro da Academia Brasileira de Gastronomia e autor do livro Vinhos no Mar Azul – Viagens Enogastronômicas (Editora Terceiro Nome).

18 de set. de 2012

Viagens pela Europa Oriental

Raul Passos fala ao programa "Papo de Viajante" da Rádio CBN sobre os países do leste europeu. Veja o link:

CBN - Programa Papo de Viajante

3 de abr. de 2010

ROMÊNIA: UMA RAPSÓDIA MÍSTICA


          A exemplo de todas as outras mudanças que nos ocorrem durante nossa existência terrena, uma viagem determina uma separação, uma escolha, uma mudança de rumo, mas também uma oportunidade de crescimento. Disse o notável escritor português José Saramago em um dos seus livros: “Nunca sabemos o que há por trás de cada gesto nosso”, e isso bem podemos aplicar à nossa vida prática dizendo que nunca temos consciência plena do que se sucede após cada uma de nossas escolhas.

           A princípio, a Romênia, desde o momento em que a escolhi como país de destino até o momento em que lá cheguei, seria sinteticamente o palco de um momento o qual dedicaria à meu aperfeiçoamento profissional, nessa perpétua e utópica busca pela perfeição. Algo a que nem sempre atinamos, além dos percalços e da natural vocação da vida às surpresas, é que, mais do que qualquer aprimoramento intelectual, buscamos em nosso íntimo um crescimento enquanto seres humanos alimentados pela centelha divina, de forma que é sempre isso que nos move em direção ao desconhecido no afã de evolução, e é sempre melhorados que regressamos de cada uma dessas jornadas.


          Do ponto de vista da minha jornada pessoal, logrei o crescimento profissional que pretendia, e hoje me considero um músico muito mais completo do que aquele que deixou o Brasil. A Romênia foi um mestre poderoso que me estimulou pelo peso e pelo exemplo de sua tradição cultural e desbastou minhas arestas pelo malhete rígido da disciplina e das intempéries da existência. Vivi a sensação dolorosa e angustiante da transição de meu pai na minha ausência, embora tenha aceitado o fato com serenidade, por saber que a missão dele havia sido cumprida com êxito, extinguindo-se com o mínimo de sofrimento e, o mais importante, tendo consigo a mão afetuosa dos meus amigos e dos irmãos obreiros que, tenho certeza, compensaram a minha ausência física.
 
Vivi ainda a dificuldade de burocráticos problemas consulares, a necessidade de repetidas mudanças de residência, o auto-questionamento sobre minhas aptidões profissionais e por muitas vezes tive vontade de desistir. Não o fiz por obra de um misterioso sentimento, que ainda hoje me acompanha e que desconheço parcialmente, mas que foi alimentado pela ternura e pelo afeto que me dedicaram os amigos que por lá fiz, e que hoje digo que foram o maior tesouro que conquistei nessa viagem, e cuja falta sinto em cada dia.

Tive também a alegria de realizar alguns concertos em solo europeu, sonho quase inalcançável para muitos outros músicos de mérito e talento iguais ou superiores ao meu. Procurei representar com dignidade e altivez o nome do nosso país, através da nossa riquíssima música, e creio ter despertado a simpatia e a curiosidade daqueles que me cercavam, face ao insólito de uma cultura tão distante deles.

Pude reparar também no fato de como a religiosidade daquele povo os ampara ante as agruras do cotidiano. Não aquela religiosidade cega, intolerante com as diferenças ou impositiva, mas aquela que é serena, leve e que permeia cada ação dos seus praticantes, como se fosse uma gigantesca e diáfana aura de uma espécie de misticismo coletivo.

Houveram ainda percalços que se converteram em pedras brilhantes: a necessidade de comunicação obrigou-me a aprender a língua romena, tarefa que tomei com prazer, culminando na paixão que o idioma acabou por me despertar. Isso propiciou momentos de grande elevação e outros mesmo lúdicos, sendo que muito do que aprendi devo às minhas colegas de turma, sempre prestativas e calorosas, que não hesitavam em me corrigir e também em dar simpáticas gargalhadas quando eu dizia alguma besteira.

A uma pessoa qualquer, o que eu diria sobre a Romênia? Que é uma país de contrastes, de belíssimas paisagens, de antiqüíssimas lendas, de uma gastronomia peculiar... Mas o que dizer para os habituais leitores desse blog, cujos ouvidos não se contentam com o mel do superficial e cuja curiosidade procura sondar o que há muito abaixo da pele em evidência? Vasculhando os arquivos da minha memória, revisitei essa terra na qual deixei uma parte da minha vida, sem apelar para fotos ou quaisquer outros estímulos que não fossem aqueles propiciados pelo coração e pela intuição, e aí encontrei “um país de companheiros”.

Explico-me: a Romênia é uma país edificado à custa de muita luta e sofrimento, amadurecido pela força da ação dos eventos históricos e apesar da natureza inicialmente rústica e ingênua de seu povo. O processo vivido ao longo de mais de dois mil anos pelos romenos não os poupou em invasões que subjugaram sua soberania incontáveis vezes. Também não faltaram divisões e partilhas territoriais que retalharam seu território separando seus iguais mas também reunindo na mesma pátria povos tão diferentes entre si: lembremos que lá convivem bucovinos, ciganos, húngaros e eslavos. Em pleno século XX, uma ditadura das mais cruéis e desumanas já vistas se impôs sobre aquele povo, provocando um atraso quase secular face aos países da Europa ocidental. No entanto, o árduo de sua história foi também o cinzel que moldou a pedra bruta. O advento da abertura econômica e social do período pós-Ceaușescu forçou os romenos a marcharem em outra direção, antagônica, e ainda é cedo para predizer o futuro do país. Onde antes havia escassez e opressão, hoje imperam a liberdade e os excessos da cultura do século XXI. Uma força os arrastou, em uma fração de tempo infinitamente curta se comparada a toda a sua história, frente à luz ofuscante de um Oriente diferente e, apesar disso, é a grande responsável pelo polimento da pedra. Hoje, a Romênia traz a experiência conquistada pela aridez de sua história e uma grande carga potencial. No entanto, ainda lhe falta a serena maturidade do ocaso para a maestria de seu destino.

No momento da partida, enquanto, a caminho do aeroporto, passávamos de carro pelas já saudosas ruas congestionadas de Bucareste, curiosamente mais do que ansiedade por retornar para casa, sentia uma saudade e uma nostalgia inelutáveis de tudo o que estava deixando. Pensei, calado e olhando pela janela, em todos os obstáculos e em todas as conquistas, no arrastado desse um ano que, por fim, pareceu fugaz como um estalar de dedos, e me lembrei subitamente das palavras que me disse minha amiga Ioana, colega de mestrado,  num dia em que conversávamos no gramado de um parque ao lado da universidade, num momento em que dividia com ela as aflições de um momento conturbado. Sorrindo, ela me disse uma frase de Nietzsche que, seguramente, nunca mais esquecerei: “Trebuie să ai un haos în tine pentru a da naștere unei stele care stralucește”. Em bom português: “É preciso que haja um caos dentro de si para que possa dele nascer uma estrela brilhante”.


13 de mar. de 2010

LES JEUX SONT FAITS


Freqüentemente as pessoas, sobretudo aquelas com quem não tenho um contato tão direto, têm-me feito invariavelmente a seguinte pergunta: “Como você foi parar justamente na Romênia?”. Não tenho cansado de repetir a mesma história, embora a cada vez enfatize um ou outro aspecto, conforme o interlocutor.
            Certamente não por acaso, há alguns dias a minha amiga romena Veronica Anghelescu, de quem fui colega na classe do compositor Sorin Lerescu, me fez um convite bastante especial: sendo ela a editora responsável da prestigiosa revista on-line de música contemporânea No.14 Plus Minus, manifestou o desejo de que eu escrevesse a história da minha amizade com o querido supracitado compositor, presidente da seção romena da Sociedade Internacional de Música Contemporânea. Mesmo sem saber, por extensão ela me deu a oportunidade de escrever a história da minha viagem para a Romênia, que está ligada diretamente ao meu desejo de aperfeiçoamento no campo da composição com o nosso digno Sorin Lerescu.
            Enviei o artigo a ela, e este foi publicado na referida revista cujo link consta logo abaixo da tradução do artigo que redigi e que transcrevo aos leitores desse blog.

            Sunt deja obișnuit cu întrebării persoanelor despre ”De ce te ai dus la România?”, mai ales din partea celor care nu văd în fiecare zi. Nu mi am plictisit de a răspunde întotdeauna la fel, chiar dacă uneori povestesc un pic diferit.
                Sunt sigur că nu își datorează unei șansa faptul că o amică mea, Veronica Anghelescu, fosta colega mea în clasă domnului Sorin Lerescu, m-a făcut o invitație foarte mult specială: fiind editora unei revistă on-line de prestigiu în domeniul muzicii timpului nostru, No.14 Plus Minus, m-a spus că ar vrea din partea mea povestea despre prietenia mea cu dragul compozitor maestrul nostru, președinte al secțiunii române a Societatea Internațională de Muzică Contemporană. Nu o știa, dar Veronica m-a dat astfel oportunitatea de a scrie povestea călătoriei mele la România, care este legată faptului că aș vrea să mă perfecționez în domeniul compoziției cu domnul Lerescu.
                Articol a fost trimis și a fost publicat în revista No.14 Plus Minus. Link-ul poate fi găsit dedesubt textului care transcriu în portugheză pentru cititori blogului.    


* * *
LES JEUX SONT FAITS...

            Em razão de alguns eventos memoráveis de nossas vidas, chegamos aos lugares mais distantes e encontramos as pessoas mais inesquecíveis. Há alguns dias eu me perguntava se tudo o que aconteceu não teria sido mais do que um sonho... Porque é apenas nos sonhos que encontramos pessoas tão maravilhosas como este senhor, do qual falarei umas quantas palavras a seguir...
            Eu era aluno de Harry Crowl na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, em Curitiba, Brasil, quando ele voltou ao país vindo da Eslovênia, por ocasião do World New Music Days, promovido pela Sociedade Internacional de Música Contemporânea. Falava com entusiasmo sobre a música que escutara por lá e, ainda mais, estava bastante contente com as amizades lá travadas. Falava especialmente sobre alguns “novos amigos romenos”. Nesse momento, mesmo sem imaginar o que se abriria para mim depois desse comentário, eu disse a ele: “Eu gostaria muito de ir à Romênia. Tem qualquer coisa nesse país que me atrai a atenção!”. Algumas horas mais tarde, me chegava por e-mail a seguinte mensagem: “Eis aqui alguém que pode te ajudar nos teus planos. Boa sorte!”. Embaixo do texto havia o nome e os contatos de Sorin Lerescu, “um excelente compositor romeno”, segundo duas próprias palavras.
            Escrevi a ele, contando dos meus planos, desejos e, por que não, esperanças de fazer alguns progressos na composição sob sua orientação. Harry Crowl me dizia que se tratava de uma pessoa tão amável e amiga como talentosa e aberta, cujo pensamento musical estava bem próximo às minhas idéias. Olhando o seu site na internet, escutei o seu Momente para orquestra de cordas e Les Jeux Sont Faits. Depois dos primeiros compassos, sorrindo, eu disse a mim mesmo: “Esta é a música que eu gostaria de fazer...”
            No dia seguinte, a resposta. Posso dizer que era capaz de escutar a voz dele vinda de dentro do texto, com sua amabilidade habitual, que ainda melhor eu iria conhecer, abrindo as portas da Romênia. Eu pensava que deveria ser algo inédito na sua cabeça: um rapaz que subitamente se interessava por seu país. Alguns dias mais tarde, Harry me enviou um e-mail do Lerescu endereçado a ele e, juntamente, sua resposta: eram algumas considerações sobre mim. Na espera, tratei de encontrar os meios de ir à Bucareste. Encontrando uma linha de pesquisa no domínio da interpretação pianística, tomei rumo à Universidade Nacional de Música de Bucareste, sem esquecer também o desejo de seguir as orientações do Lerescu de algum jeito.
            Nosso primeiro encontro foi quase um de dois velhos amigos. Na Sala Polivalenta, ele me convidou a freqüentar seu curso de composição. Foi lá também que conheci outros colegas, tão apaixonados quanto eu pela música de Lerescu. Freqüentando alguns dos cursos durante o ano em que fiquei na Romênia, cresci não apenas em alguns aspectos da composição como também como compositor-indivíduo. Pude observar a atenção afetuosa que ele dedicava à sua classe e a espontaneidade e naturalidade com a qual compunha. A lembrança de nossas conversas sobre música durante o almoço no Parque Tineretului estão ainda vivas. Um coração tão grande que não esqueceu nem mesmo a amabilidade de me convidar para a XIX Semana Internacional de Música Nova, devolvendo a este compositor o gosto e a paixão de escrever. Nesta ocasião, tive a oportunidade de não apenas escrever um testemunho dos meus tempos de Romênia, mas também de agradecer a este grande nome da música romena a oportunidade de seguir seu exemplo.

Raul Passos
Curitiba, Brasil – 8 de Março de 2010

Links relacionados:
http://no14plusminus.ro/ (Revista No.14 Plus Minus)

25 de fev. de 2010

ENTREVISTA COM RAUL PASSOS

Link para download do arquivo com a gravação da minha entrevista no programa Rota 630 da Rádio Educativa de Curitiba, programa este apresentado por Sérgio Silva. Na entrevista, são apresentadas 3 composições minhas: Novelette para clarinete e piano (com Alexandre Gonçalves ao clarinete), Estudo de Concerto (para piano) e Aos Teus Pés, na voz de Mari Lopes. Na entrevista, além de música, falo sobre a Romênia. O link ficará também à disposição para download no menu esquerdo do blog, logo abaixo do histórico de postagens.

Vă ofer aici link-ul pentru interviul (în limba portugheză...) care am înregistrat la Radioul Educativa din Curitiba (Brazilia) pe programul Rota 630 cu Sérgio Silva. Aici, vă prezint 3 compoziție: Novelette pentru clarinet și pian (cu Alexandre Gonçalves, clarinet), Studiu de Concert (pentru pian) și Aos Teus Pés (La Picioarele Tale), cu voce ei Mari Lopes. În acest interviul, vorbesc și despre România și despre persoanele cu care am lucrat (Sorin Lerescu, Fernando Klabin, Oana Zamfir...). Link-ul va fi găsit în definitiv și pe meniul de la stângă blogului, dedesubt "Arhivul Blogului".

http://rapidshare.com/files/355820134/entrevista_sergio_25_02.mp3.html

28 de ago. de 2009

UM PEQUENO TRIBUTO...


De todas as conquistas que obtive na Romênia, certamente aquela mais gratificante é de natureza imaterial, a exemplo do que normalmente ocorre nessas vivências. Vamos em busca de um objetivo específico (nesse meu caso, o aprimoramento enquanto musicista) e voltamos com uma bagagem maior. Acabamos mesmo ensinando um tanto além do que absorvemos. Naturalmente, as relações construídas acabaram sendo para mim tão ou mais importantes que o processo acadêmico em si.
Hoje, movido por um misto de saudade, agradecimento e, claro, admiração, escreverei algumas linhas dedicadas aos amigos que fiz na Universitatea Naţionala de Muzică, em Bucareste. No curso de Mestrado, somos aproximadamente 30 musicistas, sendo 9 pianistas, dos quais vou falar em seqüência. Minha convivência com eles reproduziu, de certa maneira, o ambiente no qual eu estava imerso na faculdade de Composição e Regência. Naquela época, éramos 6 na turma: 5 rapazes (além de mim, Ricardo Petracca, Rainer Mafra, Alexandre Gonçalves e Osmário Estevam Jr.) e mais a Margarethe Nascimento, que conferia um quê de respeitabilidade ao grupo dos marmanjos... Na Romênia, dos 9 pianistas, 7 são mulheres.
Passei a conviver mais com Andreea a partir do momento em que nossa professora de música de câmara, Manuela Giosa, nos propôs trabalharmos a suíte Scaramouche, para 2 pianos, de Darius Milhaud. Descobri, com grata surpresa, que aquela menina loira e baixinha de sorriso fácil era uma pianista de vivacidade incomum. Nossos ensaios eram entrecortados por conversas frugais porém muito divertidas. Numa determinada aula, após terminarmos o movimento lento da supracitada suíte, que é de uma beleza poética latente e não obstante de uma simplicidade cristalina, um silêncio profundo perdurou na sala por alguns instantes. Foi finalmente rompido pela professora Giosa: „Tão simples e tão belo como a vida...”. Não havia o que ser acrescentado... Acabou se tornando a amiga presente em cada dia. Sempre atenciosa, chega mesmo a me telefonar cá no Brasil e não esquece de vez por outra enviar uma mensagem. O que destoa um pouco do todo (e até julgo divertido) é o seu gosto por Britney Spears e Richard Clayderman... É, além de tudo, uma exímia e sensível fotógrafa.
Próxima a ela está Mădălina, porém com um temperamento musical diferente. Foi a primeira pessoa com quem travei conhecimento no mestrado, ainda no dia da matrícula. Com meu nível então precário de língua romena, a sempre prestativa secretária Mariana Popescu, no momento em que eu deveria redigir minhas solicitações de matrícula, disse para eu copiar os termos da solicitação da mocinha logo atrás de mim. Olhei para trás e Mădălina sorriu. Em pouco tempo, estaríamos trocando sugestões na interpretação da Sonata para Violino e Piano de Debussy. Juntos, amargamos os jilós dos exames de acompanhamento. Minha identificação natural com ela, pela própria personalidade artística, ainda era acrescida de coincidências bastante curiosas: executávamos praticamente os mesmos repertórios em todas as disciplinas, tirávamos sempre as mesmas notas e até nas provas que previam sorteio de questões, acabávamos tirando o mesmo papel. Na quase totalidade dos exames, virávamos página um para o outro. Além do que, é leonina também! Tudo isso levou a professora Giosa a declarar certa vez que éramos „irmãos gêmeos”. De fato, acho que se eu tivesse uma irmã seria algo parecida com ela.
Emilia foi a primeira a me ajudar, logo no começo das aulas, quando precisei de uma ajuda para entender o (burocrático) sistema de funcionamento da biblioteca da faculdade. Falando um respeitável francês, me ajudou diligentemente no preenchimento das fichas de empréstimo. Tem um jeito bastante espevitado, vive falando em esoterismo (os astros parecem reger também a personalidade dela em tempo integral...) e não hesita em analisar e resolver as relações de todo mundo através dos signos. Está aí talvez a única pessoa que sorri abertamente na Romênia! Gargalha, de fato...
A última colega de quem me aproximei foi Luiza, mesmo porque ela sempre esteve distante do resto do grupo. Paradoxalmente, a cada vez que nos encontrávamos, estava sempre preocupada em saber como eu me sentia no país, como estava convivendo com as diferenças, quais as minhas expectativas, e assim por diante. Certa vez, enquanto esperávamos a vez de entrada para o exame (devido à ordem alfabética por sobrenomes, ela normalmente me sucedia), perguntei se estava nervosa. Ela sorriu timidamente e disse: „E você sempre tão calmo... Pelo menos, é o que transparece!”.

Stefan sempre esteve mais calado, mais „na dele” como dizemos coloquialmente. Embora muito introvertido, quando decidia fazer um piada ou um comentário qualquer... era certeza de riso geral! Mostrou-se efetivamente um bom companheiro e bom papo sobretudo para os longos minutos de espera diante da sala antes de uma prova teórica. Sua tese sobre prelúdios e fugas de Bach e Shostakovich me chamou atenção para a seriedade com que encara a música.
O fato mais curioso sobre Maria, o qual acaba de me ocorrer, é que foi ela a única dentre todos os colegas com quem falei unicamente em romeno desde o primeiro momento. Possuidora de uma inteligência musical fora do comum, é dotada ainda de um poder técnico e interpretativo no mínimo invejável. Ao piano, quando tocava, deixava transparecer uma atitude imperativa e distinta, que quase parecia a de outra pessoa que não aquela menina meiga, sorridente e brincalhona que de fato ela é. Cantarola discretamente quando toca, o que é um vício desculpável para alguém que está constantemente e com efeito dentro da música.
Ioana é a personalidade mais rica e complexa de todas. Dona de uma esmerada cultura, interessada e entendida em literatura, apaixonada pela língua portuguesa, ainda é a meu ver a melhor pianista dentre todos nós: mais por sua vasta capacidade interpretativa e sensibilidade do que por sua incontestável segurança técnica. A cereja do bolo?: é vegetariana. Quando a vi pela primeira vez (ela não era tão assídua freqüentadora das aulas), pensei que fosse alguém meio fora do ar. Com o tempo e a convivência, descobri que ela é, de fato, maravilhosamente fora do ar. Passamos longas horas conversando no terraço da faculdade e por vezes também no parque Cişmigiu. Lembro nitidamente dela escrevendo no meu caderno, enquanto fumava nervosamente e os dedos da outra mão oscilavam com o lápis. Seu olhar incisivo é outra carcterística marcante. Pressentia quando algo ia errado comigo e me lançava um olhar penetrante perguntando „Ce ai cu tine?” (o que você tem?). Nunca consegui esconder nada dela por conta disso. Discutíamos musica seriamente ao mesmo tempo em que fazíamos brincadeiras como executar os dois, simultaneamente e em dois pianos, L’Isle Joyeuse, de Debussy. Disse a ela certa vez: „Você toca essa peça completamente diferente de mim... Mas como eu admiro!”.
Não sei ainda direito que razões me levaram a intuir Oana como a intérprete da minha suíte Cartas Romenas, em maio. Até aquele mês, falávamo-nos relativamente pouco. Porém sempre retive algo muito bom dela de cada vez que nos encontrávamos. Dona de um sorriso amável e franco, embora tímido, era para ela que eu recorria no meio da aula quando não entendia alguma palavra. Fui assisti-la certa vez tocar o Trio Dumky, de Dvorák. Chamou-me para jantar na sequência. Foi quando convidei-a para tocar comigo minha suíte a 4 mãos. Ela tomou a partitura, manuscrita e ainda incompleta nas mãos, folheou com gravidade e depois, com um sorriso, aceitou o desafio. Tivemos pouco mais de uma semana para prepará-la. Fui a seu convite à sua cidade natal, Galaţi, para uma estadia de 2 dias, onde poderíamos ensaiar seriamente. Lá, fui acolhido por seus pais, pessoas de uma simplicidade, amabilidade e dedicação incomparáveis, que me promoveram uma das melhores acolhidas que tive em minha vida. Na reta final antes das provas, passávamos horas a fio em salas contiguas, estudando (in)cansavelmente, até que um ia até a porta do outro e chamava para um lanche no vizinho parque Cişmigiu. Naquele gramado, freqüentemente na companhia da Ioana, dividíamos as mesmas inquietações e quase sempre as mesmas opiniões e gostos. Por suas mãos, escutei uma das mais belas e convincentes interpretações da Sonata em La Menor de Mozart. De todos, é com quem sou musicalmente mais identificado.

Essas são algumas das impressões que me vieram à mente no momento de redigir esse pequeno tributo. Certamente, um livro inteiro de boas memórias poderia ser escrito sobre esses amigos queridos. Vou me sentir tentado a, toda vez que abrir meu blog, acrescentar alguma outra memória sobre eles. Também, nesse momento, devo ao menos citar os demais amigos, de fora do meio acadêmico, que me devotaram seu carinho e suporte ao longo desse ano. Vou nomear aqui meus caros Fernando Klabin (anfitrião, amigo das horas de narguilé, das elevadas conversas sobre música e literatura e das periódicas idas aos seus retiros de Draguşeni e de Fierbinţi), Elena (sua querida e devotada esposa), o embaixador Vitor Gobato (que me prestou impagável auxílio pessoal, material e psicológico), Socorro, Rubens, Garibaldi, Jorge e Andréia (todos da embaixada), Laura Marculescu (a mais brasileira de todos os romenos), Raluca e Sebastian (que me promoveram o mais exótico ano-novo da minha vida), Wolfgang, Alexandra, Alexandru e Bianca (pelas viagens, passeios e noites de palinca e ţuica!!!), Diana Şincai e Gabriela Vişan (da Rádio Romena), Irina Sârbu (minha partner no concerto de Braşov), Sorin Lerescu (meu portal de entrada na Romênia), Verona Maier e Andreea Cristea (estes ainda do meio musical).
Todos vocês –tenham certeza- são muitíssimo mais do que a memória que me constrói!