"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos." (Marguerite Yourcenar)

«Adevăratul loc de naştere este acela unde pentru prima dată ai aruncat asupra ta însuţi o privire pătrunzătoare» (Marguerite Yourcenar)

raulpassos.maestro@gmail.com

6 de mar. de 2009

CRONICA DA PRIMAVERA QUE NUNCA COMECA


Vou começar a cronica com uma advertencia: a forma não é de uma cronica e pode ser que eu falhe na tentativa pela gama de assuntos que eu quis abarcar e pelo talvez prolixo do meu discurso. Mas vale a idéia e o desafio. Continuo não me considerando um escritor (muito longe disso...) e sim apenas um músico que faz incursões pela poesia.


***


Se em alguma coisa, acima de tudo, tivesse que apontar em que mais Bucareste se assemelha a Curitiba, diria que é na imprevisibilidade do clima. Primeiro de março, simbólico inicio de primavera para os romenos. A costumeira cerimonia dos martisor, simpaticos penduricalhos que são dados para as mulheres como bagatelas ou presentes, se da num dia maravilhoso, talvez o mais quente desde quando posso me lembrar. No final do dia, quando as meninas parecem generais da banda com a quantidade de martisores dependurados, sopra um vento glacial de arrepiar e, na manha seguinte... sorria! O inverno bate a sua porta... E assim tem sido durante a semana: um alternar de sopro primaveril com borrascas súbitas.


Indo mais além (e talvez até longe demais) penso com meus botões o quanto a personalidade complexa dos romenos (e digo complexa para um brasileiro, que fique bem entendido...) não está relacionada com o clima, assim como costumamos associar a dos curitibanos com a mesma causa. Existe um que de misterioso, que não chega a ser fechado, na natureza dos romenos. Isso se reflete de maneira geral no comportamento que se identifica espontaneamente neles. Sempre reservam algo de imprevisivel no trato.


O contraponto disso talvez possa ser observado na lingua. Digo, na fluente linearidade do idioma, sem os contornos da nossa prosódia lusiada e, ainda mais, na noção de formalidade deles, um tanto quanto "dura" para os nossos padrões. Explico-me: o que para nós pode soar "áspero" ou "agressivo", normalmente é a codificação (ou tentativa) de uma busca de equilibrio necessária, assim como a afirmação de uma identidade, um tanto quanto abstrata pelo processo histórico do país.


Ok, concordo. Desviei-me do propósito inicial da cronica. Voltemos, pois, as vacas frias... Tudo isso não passa de uma tentativa de acreditar que a primavera, doce primavera, possa trazer uma luz nova para esse espírito sedento de mais boas surpresas por aqui.


Aproximando-me da etapa final da minha permanencia por essas paragens, percebo que o estagio de absorção pura está dando lugar ao de entrega. Ou seja, estou sentindo que depois de ingerir "romenidades" estou passando a "dividir" brasilidades. Inegavelmente com um tanto de alegria e surpresa, por todo canto onde passo, tenho encontrado romenos afoitos por descobrir algo dessa terra chamada Brasil, tao desconhecida para eles (não temos o direito de achar ruim que nada se saiba sobre nosso país além de samba, futebol e carnaval: foi só o que vi passar na televisão sobre o Brasil... o que de certa maneira encontra eco no insignificante conhecimento que se tem em terras tupiniquins sobre a Romênia: nada além do Dracula e da Nadia Comaneci). Um subito agradavel e violento surto de patriotismo bateu nas ventas deste que vos fala. A leitura desse blog foi além do meu circulo de amizades e, com mais surpresa ainda, tenho recebido comentarios de pessoas exteriores a ele e tambem de romenos [sim, eles tem uma facilidade invejavel para a compreensão da lingua de Camões e de Guimarães Rosa! (parentese dentro do parentese: sim, tem quem acredite que Camões e Guimarães Rosa falavam a mesma lingua...)] . Assim sendo, decisivamente aconselhado pela minha professora de musica de camara, Manuela Giosa, vou começar a ampliar um pouco as ambições dessa pequena pagina na internet, tentando dar um pouco mais de alcance no tangente as impressões sobre a terra. Talvez seja muita pretensão para limitada habilidade, mas vou tomar a tarefa, ja iniciada pelo meu amigo Fernando Klabin com seu(s) blog(s), constantes da minha lista la embaixo...


Infelizmente, carece material no tocante ao relacionamento bilateral Romênia-Brasil. A guisa de exemplo, digo que são uns poucos autores da nossa literatura que foram traduzidos para o romeno. Por conta disso tenho que ouvir, dificilmente calado, romenos associando nossa riquissima literatura com aquele pretenso escritor pseudo-mistico de talento duvidoso cujo sobrenome nos lembra um conhecido mamifero da familia dos leporideos... Machado de Assis, Mario de Andrade, Cruz e Sousa e Vinicius de Morais permanecem ignorados, assim como concordancia verbal em conversa de adolescente, conforme ja diria o nosso Juca Chaves. Mas justiça seja feita: com igual frustração reconhecemos que conceituadissimos autores romenos do naipe de Mircea Eliade e Emil Cioran são desconhecidos do tão carente leitor brasileiro. Esse vacuo permanece uma incognita, visto que estamos falando de duas linguas neolatinas não tão distantes e com literaturas prolificas e interessantes. Se por um lado seria quase impossivel traduzir alguns autores (Grande Sertão: Veredas, o melhor livro da literatura brasileira na minha modesta porém sincera opinião, ja encontra um obstaculo no titulo), e claro que falta também iniciativa por parte de quem detem os in$trumento$ necessarios para o trabalho...


Paralelamente, no terreno da musica erudita, onde piso com um pouco mais de autoridade, percebi que o nosso Villa-Lobos é o unico nome familiar a eles, mesmo dentro do campo gravitacional da Universidade Nacional de Musica, onde curso esse primeiro ano do meu mestrado. Quando tenho oportunidade, não hesito em mostrar Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Radames Gnatalli e Claudio Santoro (para ficar apenas entre os mais expressivos) aos incessantemente deslumbrados romenos. Quando minha supracitada professora de musica de camara pediu para trabalharmos um compositor brasileiro nesse semestre, eu, exaltado pela possibilidade, vi minhas colegas percorrendo com os olhos a partitura da Segunda Sonata para Violino e Piano de Villa-Lobos com o olhar avido de quem espera encontrar um indio seminu na partitura. Mas tudo bem: elas são muito queridas e me ensinam mais romeno do que o que me é dado aprender na aula na Universidade de Bucareste (mesmo quando riem agradavel e demoradamente quando eu falo alguma coisa muito errada que as faz pensar em alguma besteira...)


Vou encerrar a narrativa de hoje com alguma coisa sobre meu cotidiano: não posso deixar de mencionar o pitoresco restaurante da favela universit...(ops!) digo, alojamento universitario do Cotroceni, para onde me mudei na ultima semana com o consenso do simpatico administrador (as instalações sao otimas, mas eu não podia perder a piada! Foi mais forte do que eu...). Nesse restaurante, que equivaleria a um bandejão popular no Brasil, a preços módicos são servidas algumas iguarias da culinaria romena: mamaliga (a famigerada polenta), um repolho cozido com um molho bem esquisito (em cada colherada é possivel se encontrar em media 10 bagas de pimenta do reino!) e cartofi prajiti (que literalmente significa "batata frita". Ok, tudo bem: não é um prato tipico, mas é consumido em quantidades expressivas. Normalmente frias e murchas, mesmo se chegarmos no horario em que o refeitório abre).


Sem mais para o momento, vou fechando a conta e passando a regua. Diferentemente do que os leitores desse texto possam inicialmente deduzir, devo advertir que o meu sentimento dominante desse lado da tela, em face do que relatei, é o de quem tem visto todas essas coisas com o mesmo tanto de deslumbramento e bom humor quanto são possiveis. Inegavel dizer que a Romênia nos entra nas veias com uma potência inelutavel...




por Raul Passos, em 06/03/2009, e pedindo desculpas pela falta de alguns acentos, pois precisa procura-los individualmente em outros textos porque a porcaria do teclado não tem.


(EM TEMPO: "porcaria" existe na lingua romena e significa "porcaria"...)

11 de fev. de 2009

DEPOIS DO INVERNO...

Janeiro foi um típico mês de inverno europeu, embora muito menos rigoroso do que nos anos precedentes, segundo ouvi dos romenos por aqui. Tivemos apenas dois dias de uma neve forte, que depois custou mais de uma semana para derreter. A paisagem muda, o país muda, as pessoas mudam...

* * *

Passou-se mais da metade da jornada. Ainda me surpreendo, comigo e com a Romênia. Algumas impressões desagradáveis e mágoas momentâneas estão dando lugar a uma plena aceitação de tudo. Aqui, antes de mais nada, estou encontrando um país que em quase tudo é semelhante ao nosso Brasil.

* * *

O primeiro semestre do mestrado foi bastante edificante e tive um bom desempenho em todas as avaliações, incluindo um 9,95 (?) no recital público de música de câmara, no qual interpretei com minha excelente colega, a violinista Lavinia Zota, a Sonata para Violino e Piano de Debussy, cuja gravação em vídeo logo postarei aqui.

* * *

Tenho assistido a concertos memoráveis por aqui. Algumas das melhores performances musicais que já presenciei: o pianista francês Dominique Merlet executando magistralmente o Concerto n.4 de Beethoven; o nosso Nelson Freire com o Concerto n.1 de Brahms, o violinista romeno Gabriel Croitoru tocando num instrumento Guarnieri de 1754, com uma incrível sonoridade; além de outras obras como a Quinta Sinfonia de Shostakovich, a Suíte Pássaro de Fogo de Stravinsky e mesmo muitas obras de compositores romenos. Essas estão entre as melhores lembranças que terei daqui.

* * *

Ultimamente tenho empregado boa parte do meu tempo livre na leitura de livros que adquiri para o mestrado, incluindo uma excelente biografia de Debussy. Estou aproveitando essas duas semanas de intervalo entre os dois semestres para adiantar um pouco do repertório que, embora nesse semestre seja um pouco menos trabalhoso, exige um aprimoramento e um refinamento maior da minha parte.

* * *

Apenas para constar: Renata e eu vimos um morcego na rua no cair da noite. Fica a graciosa pergunta: vampiros são somente uma lenda urbana?

La revedere!
por Raul Passos, em Bucareste, Romenia, em 11 de Fevereiro de 2009

3 de jan. de 2009

Feliz Ano Novo!!!

Meus queridos amigos, antes de qualquer atualização da jornada, quero externar a todos no Brasil os meus melhores desejos de felicidade, amor, saúde, sucesso, paz, temperança e alegrias para o ano que se inicia. Que nele possamos colher os frutos do nosso desenvolvimento pessoal.

Aqui na Romênia, após as tormentas das quais todos tiveram conhecimento, as coisas amainaram, fazendo jus aquele ditado. Confesso a vocês que foi um momento dos mais difíceis por que já passei e, nesse oceano de dificuldades, me ocorreu mesmo por momentos uma vontade quase inelutável de desistir de tudo e voltar. Isso não aconteceu unicamente por causa do apoio e suporte que tenho recebido de todos aqui e aí, tenha sido esse incentivo de natureza material, financeira, espiritual, etc. Em todas as circunstancias, tanto no planejamento da viagem quanto nas situações de dificuldade por que passei aqui em solo romeno, recebi sempre o pronto atendimento de todos os amigos, colegas, mesmo do embaixador do Brasil na Romênia, prezadíssimo sr. Vítor Gobato e, claro, da minha super-mãe, que não me deixa passar aperto nunca!!!

Quero expressar a todos vocês a minha mais sincera gratidão e o mais incondicional agradecimento por tudo o que recebi e tenho sempre recebido de todos. Meu coração ainda procura uma forma mais adequada de recompensar a todos. Tudo o que peço para a Grande Sabedoria Cósmica é determinação, coragem, lucidez e serenidade para perseverar na senda que elegi e, triunfando nela, poder reverter a todos os queridos irmãos as benesses que me têm destinado da melhor forma que me for possível. A todos, o meu MUITO OBRIGADO, ou ainda em romeno, MULTUMESC MULT!!!

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Seguindo com as novidades, devo dizer que o natal daqui é exatamente o mesmo que o do Brasil. Claro que estamos debaixo de neve e com temperaturas bem pra baixo do zero. Ah, sim... aqui não tem aquelas musiquinhas tocadas em harpa paraguaia como em Curitiba, mas belas canções tradicionais chamadas colinde. Mais uma vez em Drăguşeni, para onde nos dirigimos com o Fernando e a Elena, experimentamos uma semana com neve pelos joelhos e com a riquíssima gastronomia local, feita de cozonac (pão doce com nozes), placinte (torta de queijo doce), afinati (licor de frutas silvestres) e alivanca (receita secreta da Elena...). Não fosse o fato de o Fernando e eu estarmos um pouco mal do trato digestivo, teria sido tudo perfeito, com destaque para as tradicionais brincadeiras na neve com a querida Teodora, sobrinha do Fernando e da Elena.
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No ano novo, Renata e eu fomos para uma pequena aldeia aos pés dos Cárpatos chamada Cornu. Evidente que o nome, fosse no Brasil, seria pródigo em piadinhas. Muita comida, dança e diversão para celebrar o fim de um ano de muita luta e o início de outro com muitas perspectivas.
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Não sei se havia comentado: mudei-me de casa no começo de dezembro. Tive problemas com a senhoria, que invadia minha privacidade além de consumir a minha comida, para não citar outros problemas. Um amigo brasileiro que entrou então na história, Wolfgang, médico de Belo Horizonte, agora residindo na Romênia, conseguiu um quarto para mim no apartamento de sua vizinha, uma simpática senhora grega que, além de mim, tem mais uma estudante de nome Andreea como inquilinos agora. Estou agora a uma quadra da principal praça de Bucareste, numa rua silenciosa, pagando um pouco mais caro mas muito melhor alojado e instalado. De quebra ainda ganhei um mineiro como vizinho e amigo!!!
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Em meados de dezembro tive minha primeira avaliação de piano do mestrado e obtive 9,08.
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Com a resolução dos problemas concernentes ao meu direito de residência no país e ao pagamento do curso no referente a esse ano em que estou passando aqui, fico em situação regular até junho, quando termina o ano letivo e voltamos para nosso amado Brasil!!!
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No começo de dezembro, na companhia do professor Key e de sua esposa Marialba, cruzamos o rio Danúbio (que, a propósito, não é azul mas verde...) e fomos a Bulgária. Mas isso vai render uma outra história que postarei mais tarde.

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Meus queridos, vou encerrando esta página do diário por aqui. Metade da jornada já passou. Os meses que faltam serão vividos com intenso brio e vigor. Mais uma vez envio o meu abraço saudoso a todos, esperando sempre estar nos pensamentos e preces de vocês da mesma maneira como estão presentes em cada segundo que passo nesse país. Dedico ainda essas linhas, cheias de esperança e saudade, a sempre boa memória do meu querido pai que, nesse 2008 que terminou, se desenlaçou do nosso mundo material para seguir sua jornada no plano superior.

La revedere! La multi ani 2009!

3 de dez. de 2008

A LIÇÃO DE SIBIU


Sibiu por si mesma é uma cidade das mais poéticas em que já estive. Por sua importancia histórica também é uma referência. Sibiu é o que Ouro Preto poderia ser, se fosse devidamente conservada e cuidada (ainda assim, amo Ouro Preto! Uma cidades de que mais gosto no mundo). Aqui, onde permanecemos dois dias por conta da conferência sobre arquitetura brasileira do professor Key Imaguire Jr., experimentei um ambiente completamente novo, mesmo se usar como padrão a minha experiência de Romênia.

O que vou carregar comigo para sempre de Sibiu não é nem sequer algo passivel de descrição. Não se trata de algo aprendido com bela arquitetura ou paisagens, e também dessa vez não foi a costumeira simpatia que encontramos no romeno do interior. A marca de Sibiu foi impressa em mim demasiado sutil.
Quando se fez noite, nos deparamos, na Piaţa Mare (ou Grande Praça), com uma feira de Natal, nem grande nem pequena. Nessas cidades, mesmo grandes, a praça continua sendo o coração afetivo do povo. Pouco a pouco, as pessoas começam a chegar e, ao mesmo tempo, no ar começa-se a sentir o doce aroma dos doces romenos e húngaros. Em pouco tempo, o lugar fica repleto. De crianças. Quase metade das pessoas na praça são simpáticas crianças.

No entanto, o que me impressionou foi que, subitamente, enquanto caminhava por entre elas, percebi que não havia nenhum barulho. Tampouco havia risos ou vozes altas. A música, vinda de um palco instalado pela prefeitura, distante alguns metros, era apenas um delicado pano de fundo. Nada de Jingle Bells, Noite Feliz, White Christmas ou qualquer outra dessas musiquetas aborrecidas que ouvimos todos os anos da mesma maneira. Percebi que o povo não tinha necessidade de exteriorizar nada, e que o comportamento feliz deles podia ser sentido através de gestos discretos, sorrisos espontâneos, embora silenciosos e, mais importante, por meio das crianças. Absorto inteiramente como espectador de uma peça de teatro sem som, vendo os pequenos sobre o carrossel, em companhia dos pais ou passando numa discreta alegria com algodão doce nas mãos ou ainda animadamente patinando sobre o rinque de gelo, tomei consciência da importância de muitas coisas, sobretudo da simplicidade. Talvez eu não consiga me expressar devidamente mas, como avisei de antemão, foi algo muito difícil de conceituar, quanto mais descrever, posto que foi para mim como uma grande pausa no tempo. Também não foi a descoberta dessa simplicidade banal das coisas, que tantas vezes hipocritamente enfatizamos ser a coisa mais importante do mundo. Esteve além, num ponto mais sutil. Talvez tão sutil que nem pude sentir ou compreender devidamente. E embora se trate de uma verdade absoluta, o sentimento deu-se de maneira impermanente, e creio que mesmo se retornasse a Sibiu uma centena de vezes na vida não mais lá poderia encontrá-lo. Pelo menos não dessa maneira.
Ainda muito mais poderia falar de Sibiu: a efervescente cultura daquela cidade, o nostálgico crepúsculo e muitas outras coisas. Mas creio que o mais importante de tudo o que achei por entre as estreitas ruas da cidadela foi essa certeza das coisas elementares, que talvez outros possam entender diferentemente, mas que ainda assim está muito distante da nossa habitual superficialidade.

por Raul Passos, em 03/12/2008.

21 de nov. de 2008

BABY, TAKE ME BACK TO PIAUí! [ou IMPRESSõES (nada) SERESTEIRAS]...

Passados os vendavais e as tormentas, seguimos a caminhada numa eterna tentativa de aperfeiçoamento. E olhem que este mês de novembro parece não acabar...

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Esta frase titulo juro que escutei claramente como ela aí se apresenta, na festa de aniversario da revista de arquitetura Igloo, para qual Renata e eu fomos gentilmente convidados ontem a noite. Numa verdadeira (e agradabilissima) Babel musical, apareceu esse techno de Teresina!

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Muito da poesia dos primeiros meses na Romênia extinguiu-se ou ficou restrita ao interior do país, onde sempre, em todas as situações, encontramos pessoas amáveis, gentis, prestativas e polidas, ao contrário da realidade dessa capital, que beira ao caos. Por vezes, durante esse mês, o peso do emocional das coisas, somado a habitual rudeza e falta de cortesia bucarestina me deixou imensamente desgostoso com tudo e com todos e quase as portas de jogar tudo para o alto. Felizmente, também as exceções foram numerosas e ainda nos permitem acreditar num futuro melhor (para nós...)

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Nos ultimos tempos, tive a oportunidade de conhecer algumas simpáticas cidades do interior da Romênia:

Sinaia, uma famosa estação de esqui que, mesmo agora antes do inverno, encanta por suas paisagens outonais e por seus dois belos castelos, Peleş e Pelişor. Em companhia da Renata e mais duas amigas brasileiras, Janaina, de Belo Horizonte e Vivian, de Sampa, passamos um belo fim de semana nessa cidade, apesar da desconfortável viagem de trem (quem tem pouco dinheiro, viaja de terceira classe. Ou em pé). Nesse ponto da Romênia, as pessoas estão muito bem preparadas para receber turistas. E, claro, avisa-los para não permanecerem nas ruas depois das 7 da noite, quando os ursos descem das montanhas para buscar o que comer. Isso inclui turistas desavisados...

Drăguşeni, onde a familia da Elena nos recebeu maravilhosamente seguindo a tradição da recepção com pão e sal. Passamos nessa estancia tipica um fim de semana muito agradavel junto ao staff da Embaixada. Aqui, a poucos quilometros da fronteira com a Ucrânia, realmente pode-se dizer que estamos em outro país, onde as pessoas são biotipicamente diferentes da maioria dos romenos. Nosso amigo Fernando aqui erigiu uma aconchegante pousada bem a maneira campesina, com direito a forno de lenha e aquecimento da casa pelo mesmo sistema. Pudemos comprovar a excelência da gastronomia local: kozonak (pão doce recheado com nozes e mel), placinta (torta folhada), palinca (cachaça!), ţuică (mais cachaça!!!) e por aí vai... A noite, a Elena "tocava" os homens da casa para ir buscar lenha para mantermos o aquecimento da casa. A localização da pousada é a seguinte: um grande terreno descampado, com plantações nas margens, nenhum vizinho imediato e, mais distante alguns metros, a rodovia. De noite, com a bruma habitual, e acrescido ao simples fato de estarmos na Romêeeeeeeeenia, temos todos os ingredientes para um filme de terror. Esse era o cenário em que Fernando, eu, Sérgio e Rubens atuavamos! Foram realmentes dias de muita descontração e alegria.

Braşov, onde realizei meu primeiro concerto em terras européias! Essa é uma cidade que preservou seu charme medieval e é uma das pérolas da Transilvania. O concerto, no qual tive a honra de introduzir aos romenos nomes até aquele momento desconhecidos para eles (Francisco Mignone, Claudio Santoro, Brasilio Itiberê...), teve suporte oficial da Embaixada do Brasil em Bucareste e teve a presença de autoridades. Junto com a cantora Irina Sarbu, que dividiu o palco comigo, desfrutamos de uma amabilissima recepção por parte da Casa Mureşenilor, onde realizou-se o recital.


Târgu Neamţ, pequena cidade na região central do país.

...e mesmo em Bucareste desfrutamos de muitos bons momentos, como por exemplo o concerto dedicado ao nosso amigo, compositor Sorin Lerescu.

Nos últimos dias, tenho me dedicado ao aprendizado do romeno (que já está bastante melhor!). Tenho ido bastante a concertos (todos os dias tem pelo menos um. Fui presenteado por uma amiga do Fernando, responsavel pela parte de relações internacionais da Radio Romania, com um passe de livre acesso a todos os concertos). Desta maneira, tenho presenceado interpretações memoráveis de grandes obras. De resto: mestrado, estudo, compras e comida, o que não é absolutamente algo a se lastimar!

Com imensa saudade, deixo o meu abraço fraterno a todos!

La revedere!

17 de out. de 2008

BUCARESTE É...

...carros estacionados sobre a calçada, de frente, de trás, atravessados e até na diagonal.

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...floriculturas, bancos e casas de cambio a cada 10 passos. Em compensação, se você precisar de uma banca de jornais ou de uma lavanderia...

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...uma eterna possibilidade de que o atendente do guiche seja a pessoa mais amável do mundo. Ou a mais estúpida.

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...queijos deliciosos, legumes apetitosos e frutas intragáveis.

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...velhinhas pedindo dinheiro nas escadarias do metrô.

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...a moda mais esquisita do planeta.

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...cogumelos baratíssimos! E deliciosos!

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...concertos, festivais, recitais, teatro e ópera todos os dias.

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...população de cães e gatos superior a de pessoas. E suas excrecoes igualmente numerosas pelas calcadas...

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...laptops a 800 lei e uma caixa de sucrilhos a 13 lei!!! Tirando arroz, batata e papel higiênico, salve-se quem puder!

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...viajar no fim de semana pra Sinaia e descobrir que existem romenos simpaticos e ar respiravel!

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...tomar banho 4 vezes por semana e achar que o Brasil fica na Europa...

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...um transito de fazer chorar. Buzinas em tempo integral. Mas voce consegue atravessar uma rua, por mais movimentada que seja, apenas colocando o pe na faixa!

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...enquanto estudante, pagar 11,5 lei e poder andar livremente de metrô durante um mes, ou entao pagar 25 lei e andar de ônibus durante o mesmo periodo.

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...3 fumantes para cada 4 habitantes.

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...achar que no Brasil se fala espanhol.

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...fim de tarde no maravilhoso Parque Cismigiu, com direito a happy-hour depois, regado a deliciosa "tuica", aguardente feito com ameixas.

(continua... claro!)

por Raul Passos (com a colaboracao de Renata Sobreira e Renata Gobatto)

13 de out. de 2008

PENSAMENTOS SOBRE A DESIGUALDADE

A pobreza dos romenos me parece mais triste e comovente que a dos brasileiros, e ainda não sei o porque. E' possivel ainda que eu tenha essa impressao acentuada pelo fato de estar longe de casa e, justamente por isso, carente de algum tipo de compensacao emocional, mas o fato e' que, na minha vista, a expressao das velhas senhoras de veu preto nas escadarias das estacoes de metro e dos que pedem "bani pentru un putin de paine" dentro dos onibus me e' assustadoramente lancinante.

Gostaria muito de escrever, numa tentativa modesta de ser/estar cronista, mais sobre as belas surpresas que essa pais tao distante e tao proximo me ofereceu, mas nada me parece mais elementar e necessario do que esse expressivo retrato romeno contemporaneo.

Ha 4 dias, pela manha, enquanto no Brasil os pobres ainda dormiam o sono dos injustos, atravessando a principal avenida de Bucareste pela estacao de metro, nas escadarias me deparei com a cena que descrevi. Enquanto caminhava la' embaixo em meio ao formigueiro humano apertado entre os tapumes das barulhentas obras da estacao (nesse momento, Serge Gainsbourg cantarolava nos meus fones de ouvido para atenuar o ruido), me assustei com minha subida tomada de sensibilidade a isso. Por que no Brasil essas cenas passam tao corriqueiras pelo nosso campo de visao? Porque a pobreza europeia, pelo simples fato de ser europeia e' mais injusta e dolorosa, "pur şi simplu", como dizem os romenos?

Nao pretendo discorrer aqui rumo a qualquer tipo de explicacao para isso, que de todo seria inocuo, mesmo porque pode ser uma impressao unicamente deste brasileiro, mas e' inelutavel tentar justificar.

Creio que os romenos ainda nao sabem lidar com o implacavel e duvidoso capitalismo, aqui inaugurado com a queda ainda recente da ditadura comunista. A poeira dessa ruina ainda se respira no ar, junto com as nuvens de cigarro onipresentes. Nao sabem fazer uso do dinheiro, eles, que ainda desfrutam de uma certa estabilidade, preludio da entrada do Euro. Sao um povo que despreza os centavos. Nao e' raro ver pessoas deixarem cair as moedas e nao juntar, e chega a ser ofensivo dar moedas como esmola aos pedintes, como as senhoras das escadarias.

Para muitos, essa cena pode ser pouco representativa, mas consegue resumir meu sentimento a respeito, depois de um mes nessas terras. Talvez esta cena tambem explique, pelo menos em parte, a enorme discrepancia, que beira o non-sense, no preco de alguns bens de consumo. Para o outro lado da fronteira mais movimentada, na Bulgaria, ha pouco mais de 60km daqui, dizem que os absurdos sao ainda maiores, e e' um pais ainda menos favorecido.

Entao lembro-me que ouvi da boca de uma amiga, ja ha algum tempo, uma frase de Nietzsche que diz o seguinte: "Na sociedade filisteia sabe-se o preco de tudo mas nao sabe-se o valor de nada." Isto me parece ser nao um retrato, mas um despretensioso desenho dessa sociedade, tao latina por excelencia e que justamente por isso padece dos mesmo males da nossa latinidade sul-americana.

2 de out. de 2008

DIAS DE VINHO E ROSAS


Ta certo, admito: o vinho é grego e as rosas crescem apenas no parque, mas sao muito bonitas de se ver. Na alameda principal do Parcul Tineretului, tem um imenso canteiro com toda a variedade possivel e imaginaria de rosas. Quanto ao vinho romeno, bem... ainda nao posso dizer que tenha provado, mas existe uma variedade enorme e os precos vao do mais acessivel ao impensavel. Alias, como varias coisas aqui. Numa loja de eletronicos, encontramos impressoras multifuncionais por 170 lei (R$ 100 +/-), cameras digitais por 190 lei e laptops por 800 lei. Impressionante. Mas incrivel mesmo é o preco de um telefone celular, modelo mais simples: 130 lei. Comprei num supermercado uma colecao com 40 cds com a obra de Mozart e me custou apenas 27 lei!!! Se a Romenia fosse na America do Sul, teria mais muambeiros do que no Paraguai...
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Por outro lado, roupas n
ao sao abaratas, a menos que sejam compradas em supermercados.
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O transporte publico
é bastante eficiente. Trens urbanos e onibus custam 1,30 leu e o metro, com ticket para 2 viagens custa 2,20 lei. Se comprar um para 10 viagens, sai por 8,00 lei. O problema é que perto das 11 da noite ja nao ha mais onibus nem metro...
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Oficialmente as aulas comecaram, mas na verdade o que houve apenas foi uma recepc
ao para os alunos, com direito a concerto e tudo o mais.
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Depois de mais de 20 dias de imers
ao cultural, outras coisas ficam mais evidentes sobre o pais. Como eu ja tinha dito, Bucareste poderia ser uma cidade do Brasil. O que ocorre mesmo é que a Romenia é um pais de contrastes. Existem muitos pedintes nas ruas e nas estacoes de metro, sobretudo velhas senhoras. Os jornais noticiam crises financeiras e corrupcao (nao, nao estou falando do Brasil agora...) e em epoca de eleicao, como agora, a ferida fica mais aberta. Fala-se igualmente em greves e paralisacoes.
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Com a chegada da Renata, as coisas ficaram surpreendentemente mais faceis aqui. Por que sera, hein???

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Uma outra boa novidade: ja tenho dois concertos arranjados no interior do pais, na cidade de
Braşov.
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Duas atendentes de correio ja me perguntaram se o Brasil fica na Europa (viram? Poderiam ter perguntado se era na Africa...).
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Por ora, s
ao esses os meus pareceres. Volto em breve com mais fotos e causos pitorescos dessa terra lindamente estranha, onde um povo tao parecido com o nosso tambem come o pao que o vampiro amassou.

La revedere!

23 de set. de 2008

UM FIM DE SEMANA EM FIERBINTI


Fierbinti fica a pouco mais de 35 quilometros a nordeste de Bucareste e, ao mesmo tempo, parece estar em outro planeta. Nesta simpatica vila, nosso amigo Fernando erigiu uma simpatica casa de campo, rustica, charmosa e acolhedora. Do andar de cima, onde me instalei, uma gigantesca janela da vista para o Lago Dridu, que tem 12 quilometros de extensao Na parede da escada que da acesso para o andar superior, fotos de antepassados do Fernando e da Elena. Brinquei com ele, dizendo que, como naqueles desenhos animados, elas dao a impressao de que vao mexer os olhos, nos seguindo! Brrr... Coisas da Romenia!

Por vizinhos, temos a simpatica dona Sandina e sua igualmente simpatica gansa de estimacao, a Bujorel! Fomos visita-los no domingo pela manha, e ela estava com a familia colocando uma imensa carroca carregada de uvas para moer e, apos isso, colocar num tonel para fabricacao de vinho. Enquanto Fernando e Elena conversavam animadamente com ela (com a Sandina, nao com a gansa...), dois parentes dela me explicavam o processo de fermentacao da uva. Fiquei estupefato quando percebi que o romeno falado pelos camponeses me soa muito mais claro do que o falado em Bucareste.

Quando ja anoitecia, estavamos a mesa degustando um delicioso feijao (!) feito a maneira romena pela Elena quando tocou o telefone. Ao cabo de alguns instantes, Fernando voltou dizendo: "O Conselheiro Jorge para voce, no telefone". Atendi. O conselheiro me contava sobre uma amiga, professora de ballet no Teatro Nacional da Romenia, que vive sozinha numa casa no centro de Bucareste e que dispunha de um quarto para alugar. O melhor de tudo? Fala frances fluentemente. Nesse momento, visualizamos a possibilidade de me instalar na casa dela, para nao haver a necessidade do deslocamento diario de Fierbinti a Bucareste, conservando nao obstante a possibilidade de ir vez por outra para o vilarejo na casa do Fernando para estudar no piano dele, mais a vontade, e la ficar por uns dias.
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Segunda-feira, 9 da manha. Ja na entrada de Bucareste, um transito digno de Sao Paulo retardava a nossa chegada. Eu, incrivelmente tenso por conta de saber o resultado do exame de admissao, que havia sido na sexta-feira, sentia passar milhares de coisa pela cabeca.
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Perto do meio-dia, cheguei na universidade e encontrei imediatamente o professor Dimulescu, chefe do departamento de piano, pessoa muito prestativa que me havia recebido para o exame e que me havia explicado o funcionamento do mestrado. Quando perguntei sobre o resultado do exame, com o sorriso que habitualmente ele me dispensava disse, em bom frances: "Voce esta admitido. O exame foi apenas para sabermos seu nivel de piano. Desejo grande sorte a voce".
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Nao senti a euforia esperada, mas um alivio sem precedentes. Fui a secretaria onde as sempre gentis e risonhas secretarias, Mariana, Liliana e Georgiana se ocuparam de me ditar as requisicoes que eu deveria fazer (em romeno!) solicitando matricula nas disciplinas de Musica de Camara, Acompanhamento e Piano. Aguardo, por fim, o comeco das aulas, em 1 de Outubro.
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De tarde, cheguei a casa da professora Adina. Surpreendeu-me com sua comunicabilidade e gentileza. Mostrou-me meu quarto e as demais instalacoes. Nao podia ser melhor. Aqui estou muito bem alojado e posso acessar a internet. Estou proximo da universidade e do centro (e do Fernando, havendo emergencia...)

Apenas a noite, ja deitado e tentando ler uma biografia da genial pianista Clara Haskil (em romeno), subitamente me dei conta do fato de ser um mestrando agora, e de como as coisas tem maravilhosamente acontecido...
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Assim vou me despedindo de mais uma pagina dessa rapsodia, direto aqui da Romenia, terra onde nao existem cobradores de onibus, onde as ciganas se vestem com rara beleza, onde as portas abrem sempre pro lado de fora e, nao menos importante, onde os pimentoes sao redondos e as cebolas sao compridas!


por Raul Passos, em Bucareste, Romenia, 23/09/2008

20 de set. de 2008

CU UN LITRU DE VIN NU SE MOARE DE SETE...


...foi a frase que mais repeti desde que pisei em solo romeno, e todos se impressionam com as semelhancas de nossa lingua. Ontem, sentados no terraco do hostel, apos um jantar indiano, estavamos um australiano, um ingles, uma romena, um holandes, um frances e eu, servindo de representante da lingua de Camoes e de Guimaraes Rosa, e nesse momento com um livro de poesia do Drummond nas maos. A lingua exerceu um fascinio muito grande nos presentes e a mim mais ainda a fluencia na leitura e no entendimento mostrados pela nossa amiga romena.

O tempo comecou a esfriar aqui e ja comecamos a temer pelo inverno. Por outro lado, os parques de Bucareste estao ganhando cores especiais.

Ontem ainda, conheci pessoalmente o compositor Sorin Lerescu, um dos grandes incentivadores da minha vinda a Romenia. Acredito ter poucas vezes na vida cruzado com alguem de tamanha amabilidade e cortesia. Convidou-me a frequentar sua classe de composicao, como maneira de me aperfeicoar nesse braco da musica que, como todos sabem, ate o momento encarei com um certo temor e receio.
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Amanha deixo o hostel e me instalo em Fierbintii. Deixo o transito caotico do centro de Bucareste por algo mais bucolico.
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Estou descobrindo maravilhosas variacoes da culinaria local, e constatei que e perfeitamente possivel, segundo os dizeres do Fernando, sobreviver a pao e queijo se necessario. Sao maravilhosas as versoes desses dois alimentos. Entre os queijos sao particularmente deliciosos o cascaval e o feta, uma especie de queijo branco com um gosto bem acentuado.
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Hoje, pela hora do almoco, logo apos o exame na universidade, fui a um restaurante num subsolo bastante modico e apreciado por estudantes e acho que, pela primeira vez, pude enfrentar um dialogo sem dar na vista (ou na voz) ser estrangeiro.
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Sao essas as novidades para o momento! Aguardem as fotos, em breve!

La revedere!

por Raul Passos, em Bucareste, Romenia, 19/09/2008

15 de set. de 2008

BUCARESTE, UNIVERSO PARALELO (parte 2)



Depois de quatro dias nesta incrivel cidade, as coisas, que ja nao eram dificeis, ficam divertidas. Inclusive quando se trata de arriscar falar romeno o tempo inteiro, inclusive na superlotada estacao de metro da Piata Romana, e enfrentar um metro pra la de turbulento.
* * *
Mais a vontade para sair, nao preciso mais ficar colado no mapa. As ruas principais ja se desenharam na minha mente e consigo passear com mais seguranca. Fui a Libraria Noi, e la descobri tres coisas: 1) a melhor, mais fascinante e completa livraria da Romenia nao tem um mapa sequer de Bucareste!!! 2) a palavra mais bela da lingua romena (entre as que conhecia ate agora): "belestriza", que significa "literatura". 3) um dicionario portugues-romeno, que eu nao acreditava existir!
* * *
Na universidade, fui muito bem recebido pela assistente de assuntos internacionais, que deu conta de toda minha documentacao, facilitou-me a vida no tangente ao pagamento das taxas (poderei faze-lo em mais suaves prestacoes!) e, de quebra, providenciou para que eu pudesse usar uma sala com piano por dois dias antes do exame, que sera na sexta-feira.

Fui a Embaixada do Brasil, e descobri, maravilhado e aliviado, que nosso pais e o mesmo em qualquer lugar: pessoas alegres, bem dispostas e comunicativas. Tive o privilegio de almocar com o nosso embaixador, que e uma pessoa de rara cultura, sensibilidade e diplomacia, e me fez sentir mais seguro e confiante. La pelo meio da tarde, chegou finalmente meu querido Fernando Klabin, com quem passei agradabilissimas horas ate o fim do dia, num papo divertidissimo e, e claro, na Ultima Flor do Lacio, nossa lingua portuguesa. Na embaixada ainda conheci o nosso adido cultural, Jorge de Sa, fantastica figura, a esposa do Fernando, Elena, uma romena que fala portugues perfeitamente e faz uma tortinha romena chamada placint, alem do Ion, romeno naturalizado brasileiro, que e o outro motorista da casa.

Ontem ainda pude, a conselho da Andreea, que e a pessoa que toca esse hostel, almocar num pitoresco e deslumbrante lugar, que existe desde 1879: o restaurante Caru Cu Bere. La provei dois dos mais tradicionais pratos romenos em sua versao vegetariana: a ciorba (sopa) e a mamaliguta (uma polenta com queijo e ovo). Deliciosos!!!!

Satisfeito e feliz da vida, vou encerrando essa segunda parte, hoje sem gatos no colo mas com uma chuva tremenda la fora!

La revedere!

por Raul Passos, em Bucareste, Romenia, 15/09/2008

12 de set. de 2008

BUCARESTE, UNIVERSO PARALELO



Foi como acordar de um sonho e se descobrir dentro de outro... A realidade da qual saimos muitas vezes e a mesma na qual entramos.
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Depois de mais de um dia chacoalhando em avioes, passando por interrogatorios nas alfandegas, ja estava bastante cansado e um pouco fora da realidade, quando a voz do comandante substituiu a musica e eu olhei para fora. Antes de conseguir soletrar "B-U-C-A-R-E-S-T-E", a cidade emergiu da massa de nuvens. Reconheci o aeroporto no instante do pouso e, confesso, esse foi realmente o primeiro momento em que me dei conta de onde estava e de que de fato la estava.
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O policial da imigracao lancou um olhar intrigado sobre meu passaporte, como quem diz "Nao e possivel" e, atonito, pousou energicamente o carimbo sobre meu visto. Retirei minha bagagem na esteira e, quando abriu-se a porta do desembarque, com um grande alivio vi a plaquinha com meu nome nas maos de um sorridente brasileiro. Garibaldi, cearense e extremamente bem-humorado, motorista do embaixador, foi incumbido de me conduzir nas primeiras horas. Levou-me a um cafe no centro, onde pude trocar meus euros por lei.
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O mais estranho em Bucareste e a incrivel semelhanca com qualquer cidade brasileira de grande porte. A cidade ela mesma e o povo. Em geral, aqui predios historicos coexistem com outros erigidos durante o regime comunista. Muitos deles sao imensos e escuros por dentro, os publicos especialmente, embora o cinza domine a paisagem. Casas de cambio a cada 10 passos, pessoas normalmente educadas e um transito digno de Sao Paulo. Estaciona-se de qualquer jeito, inclusive sobre as calcadas. Em compensacao, os motoristas param nas faixas para que pedestres atravessem mesmo em grandes avenidas, os bulevardul. Aqui, carros novissimos e de ponta circulam conjuntamente com os horriveis dacia, carros tenebrosos muito parecidos com os Lada, e que rem etem ao tempo do comunismo. Trens eletricos e pre-historicos circulam no meio da rua.

Apos me instalar no simpatico Butterfly Villa Hostel (tem varios gatos passeando pelo predio e enchendo os espacos de miados. Nesse exato momento, tem 3 dormindo no meu colo...) e tomar meu primeiro banho bucarestino, sai pelas ruas. Muitas bandeiras, da Romenia e da Uniao Europeia, sempre justapostas na entrada dos grandes predios.
Fui a um simpatico cafe/livraria, tomei um suco de laranja (que, aqui alias, e sempre feito com grapefruit. Portanto, vermelho!), arrisquei algumas palavras em romeno na rua e sempre fui respondido com sorrisos reconfortantes. Fui a um supermercado e observei coisas interessantes: optei por um sanduiche vegetariano e fui surpreendido por um queijo branco ("branza"), muito parecido com o nosso Minas Frescal, porem um dos mais deliciosos que ja provei. Experimentei uma cerveja romena, de excelente padrao e que me custou 1,89 lei, ou seja, algo em torno de R$ 0,90, um pouco maior do que a nossa latinha.
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Bananas? Sim, encontrei por aqui. Custam 4,70 lei. Cada!!!!
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Feijao, pra alegria geral da nacao, segundo o Garibaldi, tambem tem, e e possivel comer todo dia. (suspiros de alivio!!!!)
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A maior dificuldade foi comprar um cartao telefonico. A vendedora, no quiosque, com o maior jeito de professora primaria, quando compreendeu o que eu queria, estendeu-me o cartao e uma nota de 10 lei e disse com um sorriso enigmatico "cartela telephonica. Romtelecom". Hoje, no segundo dia, arrisquei: "O cartela telephonica internationala, va rog!", e fui mais rapidamente respondido.
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Liguei para Alexandra, que me atendeu com uma voz de grata surpresa quando eu disse "Raul Passos, from Brazil". Jantamos hoje, numa animada conversa de afinidades e afastamentos entre a cultura romena e a brasileira.
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Os ciganos nao sao tantos como fazemos supor no Brasil. Eles estao na verdade bem misturados na populacao e entre os poucos que identifiquei como tal, estao as vendedoras de flores.
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Hoje pela manha, tomei cafe com um casal de simpaticas polonesas (!), bastante divertidas e interessadas sobre o Brasil. Dei a elas de presente 25 centavos de real, e elas me deram em troca 50 centavos de Zloti. Creio que sai ganhando no cambio...
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Passeando pela Bulevardul Nicolae Titulescu, de sacola de mercado em punho e mochila, mastigando um generoso sanduiche, finalmente tive a sensacao de estar em casa, no meio dessa nova paisagem.

Estes foram resumidamente meus dois primeiros dias. Saibam que estou bem e espero que todos no Brasil tambem estejam!
La revedere!
por Raul Passos, em Bucareste, Romenia, 13/09/2008

30 de ago. de 2008

AFINIDADE


A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente.

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que foi interrompido. Afinidade é não haver tempo mediando a vida.

É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo sobre o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial. Ter afinidade é muito raro.


Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.


Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavra. É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.


Afinidade é sentir com. nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo. Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado. Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios.


Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar. Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar.


Afinidade é jamais sentir por. Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo. Mas quem sente com, avalia sem se contaminar. Compreende sem ocupar o lugar do outro. Aceita para poder questionar. Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.


Só entra em relação rica e saudável com o outro quem aceita para poder questionar. Não sei se sou claro: quem aceita para poder questionar, não nega ao outro a possibilidade de ser o que é, como é, da maneira que é. E, aceitando-o, aí sim, pode questionar, até duramente, se for o caso. Isso é afinidade. Mas o habitual é vermos alguém questionar porque não aceita o outro como ele é. Por isso, aliás, questiona. Questionamento de afins, eis a (in)fluência. Questionamento de não afins, eis a guerra.


A afinidade não precisa do amor. Pode existir com ou sem ele. Independente dele. A quilômetros de distância. Na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar. Há afinidade por pessoas a quem apenas vemos passar, Por vizinhos com quem nunca falamos e de quem nada sabemos. Há afinidade com pessoas de outros continentes a quem nunca vemos, veremos ou falaremos.


Quem pode afirmar que, durante o sono, fluidos nossos não saem para buscar sintomas com pessoas distantes, com amigos a quem não vemos, com amores latentes, com irmãos do não vivido?


A afinidade é singular, discreta e independente porque não precisa do tempo para existir. Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem se estabeleceu o vínculo da afinidade! No dia em que a vir de novo, você vai prosseguir a relação exatamente do ponto em que parou. Afinidade é a adivinhação de essências não conhecidas nem pelas pessoas que as têm.


Por prescindir do tempo e ser a ele superior, a afinidade vence a morte, porque cada um de nós traz afinidades ancestrais com a experiência da espécie no inconsciente. Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós, para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes.

Sensível é a afinidade. É exigente apenas de que as pessoas evoluam parecido. Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau, porque o que define a afinidade é a sua existência também depois.


Aquele ou aquela de quem você foi tão amigo ou amado, e anos depois encontra com saudade ou alegria, mas percebe que não vai conseguir restituir o clima afetivo de antes, é alguém com quem a afinidade foi temporária. E afinidade real não é temporária. É supratemporal. Nada mais doloroso que contemplar afinidade morta, ou a ilusão de que as vivências daquela época eram afinidade. A pessoa mudou, transformou-se por outros meios. A vida passou por ela e fez tempestades, chuvas, plantios de resultado diverso.


Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças, é conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas, quanto das impossibilidades vividas.


Afinidade é retomar a relação do ponto em que parou, sem lamentar o tempo da separação. Porque tempo e separação nunca existiram. Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado.


(Arthur da Távola)